O TERCEIRO
PROBLEMA TEM ASSINATURA DE BERNIE LECEIRO
Torneio de Decifração “Solução à Vista!” – 2026
Problema nº 3
To Rome With Love, de Bernie
Leceiro
Roma brilhava sob o sol dourado do fim da tarde, com o trânsito a
mover-se preguiçosamente e os sinos distantes a marcar as horas. Ferreirinha
ajeitou o vestido enquanto caminhava de mãos dadas com Alves da Selva pela Piaza
Navona, o ar morno carregado de vozes, risos e o cheiro doce de gelado e
café recém-tirado.
Era o seu aniversário de casamento — trinta anos. Tinham prometido que um
dia voltariam à cidade onde tinham estado há dez anos, e agora ali estavam, com
a Fontana dei Quattro Fiumi à frente e o coração cheio de histórias.
Alves da Selva tirou o telemóvel do bolso e tentou tirar um selfie; Ferreirinha
riu, empurrou-lhe a mão e encostou-se ao ombro dele.
“Faz-me parecer italiana, pelo menos,” brincou ela.
“Já pareces,” respondeu ele, antes de lhe roubar um beijo rápido.
O mundo seguiu a rodar à volta deles — as buzinas ao longe, o bulício dos
turistas a acenar bandeiras, uma banda de rua a tocar Nel blu dipinto de blu
de Domenico Modugno. E, por um instante, parecia que Roma existia apenas para
eles os dois, quando essa tranquilidade é interrompida pelo encontrão de um
grupo de dois meliantes em que ambos envergavam camisolas da AS Roma, seguido
por um grito agudo de Ferreirinha – “Roubaram-me a carteira!”
Um dos indivíduos com o nº 21 nas costas segue para Norte o outro com a
camisola nº 92 para Sul da praça. Alves da Selva fica indeciso qual dos dois
seguir, bastante mais novos, seria tarefa impossível apanhar qualquer um deles,
lançar o alerta aos seus colegas carabinieri também seria infrutífero,
centenas de pessoas andam com estas camisolas em Roma. Provavelmente as
camisolas corresponderiam aos seus ídolos da equipa de futebol giallorossa
da capital. Resta tentar recuperar rapidamente os documentos, e esperar que
apenas estivessem interessados nos poucos euros que enfeitavam a carteira de
turista da sua mulher.
Ferreirinha apenas conseguiu ver o braço esquerdo do ladrão tatuado com
duas listas horizontais a pegar na carteira do interior da sua bolsa de
tiracolo e os dois a fugirem cada qual para seu lado da praça. No meio da
azáfama de selfies junto à fonte ninguém deu importância ao roubo, tão
pouco forneceu alguma pista adicional, apenas olhares de pena e solidariedade.
- “Vamos rápido” – avança Alves da Selva – “se a minha intuição estiver
certa, vamos tentar encontrar a carteira junto à Fontanna del Nettuno,
nesta direção” – e apontou para Norte.
Felizmente assim foi chegado junto da fonte, guardada pela imponente
imagem guerreira em mármore de Neptuno, viu a carteira boiando parcialmente
submersa. A carteira estava molhada, mas os documentos (cartão de cidadão)
intactos, faltavam 60 euros em notas. – “Vão-se os anéis, mas ficam os dedos!”
– lamentaram-se perante a estátua que representa a alegoria do triunfo do bem
sobre o mal.
No final do dia, Alves da Selva estava de rastos após tantas emoções e
quilómetros caminhados. As visitas aos monumentos mais famosos da cidade
arrasaram-no. O Coliseu, o panteão, o fórum Romano, as catacumbas, os museus do
Vaticano… mal caiu na cama logo entrou num profundo e curioso sonho. Encarnou
uma bela mulher, encontrava-se num templo de arquitetura clássica e grandiosa,
com arcos majestosos e colunas a lembrar a basílica de S. Pedro, com duas
estátuas à entrada de deuses da mitologia grega. Apolo, representando a luz da
verdade, à esquerda, e Atena, deusa da sabedoria, da civilização e da
matemática, à direita. No templo cerca de sessenta pessoas discutem as suas
teorias, entre as quais identificou algumas das mentes mais
brilhantes da Grécia Antiga. Fez uma vénia perante Platão e Aristóteles -
Reconheceu-os pelas obras que seguravam, Timeu, e Ética a Nicômaco,
respetivamente. Cruzou-se com vários filósofos e pensadores. Heráclito,
Diógenes, Euclides, Ptolomeu, mas os seus parcos conhecimentos em filosofia não
eram suficientes para uma breve troca de palavras que fosse com esses génios.
Ainda tentou falar com Epicuro sobre a tranquilidade que o futebol de Farioli
transmitia ao seu Futebol Clube do Porto e o prazer que lhe dava discutir
futebol à segunda-feira com os amigos à mesa do café. Coroado com folhas de
videira, um símbolo associado à alegria e à felicidade, Epicuro estava a
escrever um livro, rodeado de seguidores. Ignorou-o, certamente ainda não
conhecia a magia do futebol de Farioli…
A um canto um célebre filósofo e matemático escrevia num caderno,
enquanto um grupo de alunos o observa atentamente, tirando notas das suas
explicações. Baixando o olhar depara-se com o que o seu olho clínico de
inspetor sénior interpreta como sendo um roubo à descarada, tal e qual o da
tarde na piaza Navona. Alves da Selva abriu os olhos e viu os magníficos
estuques do seu quarto de hotel, lá fora o dia clareava e as primeiras
buzinadelas do transito infernal de Roma acordaram o inspetor.
No dia seguinte, resolveram poupar as pernas e aproveitar os encantos de
Roma e das suas fontes, almoçaram numa tratoria de rua. O jantar de
aniversário de casamento foi num simpático restaurante, Sapori D’Ishia,
perto de Villa Borghese, com a particularidade do chef ser também
pianista e terem acompanhado um Cognilio all’ Ischitana ao som do Arriverdeci
Roma de Renato Rascel tocado pelo multifacetado chef num faustoso piano
de cauda que ocupava quase meia sala.
Esta não seria propriamente a melhor noite para retomar o sonho da noite
anterior. Poderá o leitor ajudar Alves da Selva a interpretar e concluir o seu
sonho?
Onde decorre o sonho de Alves da Selva? Quem é o personagem roubado? O
que foi roubado? Já agora porque optou Alves da Selva por procurar a carteira
na zona norte da plaza Navona?
E pronto, por agora, ficamos à espera das vossas propostas de solução
a este segundo problema, que devem ser enviadas até 31 de março de 2026,
através dos seguintes meios:
a)
por email, através do endereço eletrónico
salvadorsantos949@gmail.com;
b)
por correio,
através do endereço postal Salvador Santos / rua Quinta do Modelo, 40 /
2820-261 Charneca de Caparica;
c)
entregando em mão própria ao
orientador da secção, onde quer que o encontrem.
Por último, recorda-se que, conjuntamente com a proposta de solução
deste problema, os nossos concorrentes devem enviar a pontuação atribuída ao 2º
problema do torneio, cuja solução de autor será publicada na próxima edição d’
O Desafio dos Enigmas.