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Monday, August 20, 2018
  O DESAFIO DOS ENIGMAS - edição de 20 de agosto de 2018 NOVA SOLUÇÃO E NOVAS CLASSIFICAÇÕES A presente edição da nossa secção desvenda a “solução oficial” do enigma que constituiu a terceira prova do torneio de decifração “Solução à Vista!”, trazendo consigo as pontuações obtidas pelos “detetives” participantes e a classificação geral atualizada. Ainda há muito caminho a percorrer mas já se antevê uma luta interessante na disputa pelos prémios em disputa, onde sobressaem Daniel Falcão e Detetive Jeremias, campeões nacionais da modalidade em 2016 e 2017, respetivamente. No que respeita ao torneio de produção “Mãos à Escrita!”, regista-se nova mudança na liderança, com Rigor Mortis a destronar A. Raposo por uma magra margem pontual. TORNEIO “SOLUÇÃO À VISTA!” Solução da Prova nº. 3 “As Três Poltronas”, de Rigor Mortis O inspetor João Velhote interrogou intensa e rigorosamente António de Carvalho e Carlos dos Santos, obtendo uma corroboração total da descrição que lhe tinha sido dada por Antero Rodrigues. Nenhum deles confessou o crime, claro. Mas Velhote, como tinha dito, já tinha percebido o que ali se tinha passado. Evidentemente que Luís da Mata não se tinha suicidado. Quer o facto de o projétil estar incrustado na poltrona oposta àquela onde estava o cadáver, quer o sangue existente no tapete entre as três poltronas, mostravam claramente que o corpo tinha sido movido após a morte (seguramente imediata), da poltrona onde habitualmente se sentava o Luís da Mata (onde ele tinha sido morto) para aquela onde habitualmente se sentava o António de Carvalho. E como os mortos não andam… Qual dos dois ex-amigos o tinha morto? O Carlos dos Santos, a quem pertenciam a pistola e o silenciador? Ele poderia ter ido buscar a sua pistola, quando quer o Antero Rodrigues quer o António de Carvalho tinham saído da sala, morto o Luís e movido o corpo deste para a poltrona do António, como um insulto final aos dois ex-amigos. O inspetor João Velhote não ficou iludido com o que as aparências apontavam. Tudo indicava que o crime tinha sido premeditado e, assim sendo, o assassino tinha certamente planeado as coisas de forma a dissimular a sua identidade. Como ele próprio pôde verificar, abrir os cadeados dos armários do Carlos e do António (onde encontrou a respetiva arma) não se revelou de qualquer dificuldade, munido simplesmente de uma pequena chave-mestra de cadeados daquele tipo. Qualquer um o poderia ter feito em segundos. Lúcidos e inteligentes como o Antero dizia que eram, ambos saberiam disso. Com o tempo de que dispuseram, entre a saída do Antero da sala, depois de servir os aperitivos, e o regresso de qualquer deles da casa de banho, qualquer um deles poderia ter ido até aos armários apanhar a arma do Carlos e ter morto o Luís. A indicação mais importante era a da poltrona onde o cadáver tinha sido deixado. Colocar o corpo do Luís na poltrona do outro ex-amigo poderia ser um insulto final dirigido pelo homicida aos dois, mas dadas as idiossincrasias extremas dos três em relação às respetivas poltronas – e aos “seus” objetos em geral – seria obviamente interpretado como uma indicação da identidade do assassino – o “dono” da terceira poltrona. O assassino, notou mentalmente João Velhote, não teria outra justificação para mover o corpo – correndo seriamente o risco de ser visto por alguém a fazê-lo – que não fosse desviar as atenções de quem viesse a investigar o crime. Se o Carlos fosse matar o Luís com a sua própria arma, colocar o seu corpo na poltrona do António só levaria a concentrar as atenções na sua própria pessoa. Pelo contrário, quem iria imaginar, quando eles eram tão absolutamente irredutíveis na ocupação de cada uma das “suas” poltronas – e quanto aos “seus” objetos em geral – que o António fosse colocar o cadáver do Luís na “sua” própria poltrona, depois de o ter morto com a arma do Carlos? Mas depois de aí ter posto o Luís, o António não conseguiu conter a sua profunda irritação por o ver na “sua” poltrona. Num acesso de ira, deitou a mão aos jornais e revistas que estavam na “sua” mesinha de apoio e lançou-os ao chão. Algo que o Carlos decerto não faria, se tivesse sido ele o autor do crime, perversamente satisfeito como estaria com o insulto final ao Luís e ao António… Concluir que o assassino tinha sido o António de Carvalho foi quase intuitivo para o inspetor João Velhote. Para o provar, no entanto, teria que encontrar vestígios de sangue nas suas roupas e resíduos do disparo nas suas mãos, bem como as suas impressões digitais nos jornais e revistas deitados ao chão. Pontuação e Classificação (após a 3ª. Prova) Mais de metade dos concorrentes em competição conseguiu alcançar a pontuação máxima no enigma proposto por Rigor Mortis, com Detetive Jeremias a obter pela terceira vez consecutiva “pontos especiais” destinados às melhores soluções. Daniel Falcão e Bernie Leceiro voltaram a merecer essa distinção pela segunda vez, animando a luta pelos lugares do pódio. 1º. Detetive Jeremias (24+11): 35 pontos; 2ºs. Daniel Falcão (21+12) e Inspetor Mucaba (23+10): 33 pontos; 4ºs. Bernie Leceiro (19+13) e Madame Eclética (22+10): 32 pontos; 6ºs. Ma(r)ta Hari (20+10) e Zé de Mafamude (20+10): 30 pontos; 8ºs. Abrótea (18+10), Arc. Anjo (19+9), Ariam Semog (18+10), Carlota Joaquina (19+9), Gomes (19+9), Inspetor Madeira (18+10), Martelo (19+9), Necas (18+10), Rigor Mortis (18+10) e Talismã (18+10): 28 pontos; 18ºs. Beira Rio (17+10), Bigode (18+9), Broa de Avintes (18+9), Chico de Laborim (18+9), Detetive Bruno (17+10), Holmes (18+9), Inspetor Guimarães (18+9), Pena Cova (18+9) e Solidário (17+10): 27 pontos; 27ºs. Charadista (18+8), Chico da Afurada (17+9), Haka Crimes (18+8), Santinho da Ladeira (17+9) e Vitinho (16+10): 26 pontos; 32º. Mascarilha (16+9): 25 pontos; 33º. Bota Abaixo: (15+8): 23 pontos. TORNEIO “MÃOS À ESCRITA!” As avaliações feitas pelos solucionistas e pelo orientador da nossa secção ao enigma “As Três Poltronas”, de Rigor Mortis, concorrente aos prémios em disputa no torneio de produção policiária “Mãos à Escrita!”, resultaram na seguinte pontuação média final: 7,10 pontos. Com esta pontuação, Rigor Mortis assume a liderança do torneio, com mais duas décimas que A. Raposo e mais três décimas que Daniel Gomes, que ocupam a segunda e terceira posições, respetivamente.  
Friday, August 10, 2018
  O DESAFIO DOS ENIGMAS - edição de 10 de agosto de 2018 MESMO EM PERÍODO DE FÉRIAS, A COMPETIÇÃO NÃO PÁRA Com um verão verdadeiramente digno desse nome finalmente instalado no nosso país, após uma chegada inusitadamente tímida e tardia, os nossos leitores recebem um enigma que ameaça fazer suar as estopinhas aos concorrentes ao torneio “Solução à Vista!”. A forte onda de calor que agora se faz sentir não ajuda a quem tem a tarefa de decifrar este problema da autoria de um dos nossos mais destacados e temidos produtores, mas a verdade é que a competição não pode parar. Perante este quadro, aconselha-se atenções redobradas ao desafio proposto, com ansiedade nula e renovadas leituras atentas, em horas mais frescas ou no resguardo de uma sombra refrescante. O stresse e a pressa não são boa companhia na hora de deitar “mãos à obra”, sobretudo quando o trabalho é realizado à torreira do sol ou sob altas temperaturas. Este conselho é naturalmente extensivo aos leitores que ainda não se decidiram a participar nas nossas competições, mas que não se escusam a tentar a decifração dos enigmas a concurso, fazendo-o apenas mentalmente ou através da elaboração de soluções escritas, que depois comparam com o veredito dos seus autores. A estes últimos, fica aqui entretanto uma chamada de atenção: o facto de o torneio já se encontrar numa fase avançada não os inibe de apresentar propostas de solução a qualquer momento! E que tal aproveitar este enigma de Verbatim, que agora se publica, para submeter à apreciação do orientador da secção os seus dotes “detectivescos”? Vamos a isso?!… TORNEIO “SOLUÇÃO À VISTA!” Prova nº. 4 “Contas Desajustadas”, de Verbatim Afonso Sena enquadrou o caso: “Sr. Inspetor, o Carlos Guimarota, o João Liberto e eu planeámos esta viagem a Nova Iorque com todo o cuidado. Combinámos as coisas de modo a que o grosso dos gastos acabasse distribuído de maneira igual pelos três a fim de pouparmos algum dinheiro. Estivemos cinco dias exatos em Nova Iorque. No entanto, pouco antes da partida, confrontei-me com uma dificuldade financeira e pedi, ao João e ao Carlos, um adiamento da minha contribuição para as despesas comuns. Eles concordaram logo. Quando regressámos, uma vez feitas as contas em euros, verificámos que o bolo dos gastos comuns atingira 6000 euros, para os quais o João dera 3600 e o Carlos 2400. É como se cada dia em Nova Iorque nos tivesse custado 1200 euros, tendo o João pago 3 dias e o Carlos 2 dias. Uma semana depois do regresso, apressei-me a ressarcir o João e o Carlos do dinheiro adiantado. As contas eram bem simples. Cabia-me entregar, aos meus amigos, um terço dos 6000 euros gastos, ou seja 2000 euros. Havia só que dividir 2000 por 5 partes para dar 3 partes ao João e 2 ao Carlos, a fim de saldar as contas de acordo com as contribuições de cada um deles para o bolo comum. Depois de lhes falar no assunto, transferi 1200 euros para o João Liberto e 800 para o Carlos Guimarota. Corria tudo bem até que, há uma semana, apareceu o João no ginásio a dizer que o Carlos só tinha que receber 400 euros, enquanto ele tinha direito a 1600. Achámos que estava a brincar. Ele, porém, insistiu, com ar sério. O Carlos, visto estarem ali pessoas conhecidas, limitou-se a dizer-lhe para ir dar uma volta. Eu, pelo meu lado, pedi também ao João para não se armar em tolo. Ele, porém, não desarmou, acabando o Carlos encostado ao João aos gritos, a dizer que não admitia que se pensasse que ele pudesse querer ficar com o dinheiro de alguém, acrescentando que se havia ali um gatuno só poderia ser ele João. Foi quando este escorregou e caiu estatelado no pavimento de mosaicos. Sei que está com um traumatismo craniano mas, felizmente, sem correr perigo de vida. Quando puder falar connosco talvez consiga explicar por que motivo nos quis irritar. Há umas outras contas, relativas a namoradas, que eles jamais acertaram, Terá sido por causa disso que o Liberto veio com esta provocação sem pés nem cabeça? Não sei.” Carlos Guimarota confirmou o depoimento de Afonso Sena, listando ainda visitas feitas em Nova Iorque e até em Washington, onde foram no terceiro dia. Mostrou comprovativos das diversas despesas. Anotou que em Washington avistaram uma antiga namorada dos dois, inserida num grupo brasileiro. Confessou que “De facto, perdi a cabeça com a estúpida brincadeira do João, mas não o empurrei. Estava disposto a dar-lhe uma cabeçada, mas nada mais do que isso. Não lhe desejo mal algum, mas exijo que retire as insinuações de que quis ficar indevidamente com o dinheiro dele”. O Inspetor estagiário Timóteo Silva obteve as declarações anteriores na sequência de uma queixa, apresentada pela família de João Liberto, contra Carlos Guimarota, acusando este de ter agredido e difamado aquele seu familiar. Entretanto, João Liberto recuperou, não desmentiu os depoimentos dos amigos, afirmou ter-se sentido ameaçado, para além de difamado, mas não propriamente agredido. Explicou também as contas que fez. A partir do que ouviu, o Inspetor estagiário concluiu que este caso talvez pudesse ser resolvido através de uma conciliação. Falou com o chefe, o velho Flávio Alves, que concordou com a proposta do seu subordinado. Timóteo Silva saiu-se muito bem da sua incumbência conciliatória. Flávio Alves comentou o feliz acontecimento com o seguinte comentário: “Eles não voltarão a ser amigos como dantes mas, pelo menos, não farão guerra entre si”. DESAFIO AO LEITOR Diga, caro leitor, como se explicaria na reunião de conciliação para fazer cair a queixa apresentada assim como para obter a compreensão e a paz entre Afonso Sena, João Liberto e Carlos Guimarota. Pedimos que o faça através de relatório circunstanciado a enviar para o orientador da secção, até dia 18 de setembro, por um dos seguintes meios: - por correio, para AUDIÊNCIA GP / O Desafio dos Enigmas, rua do Mourato, 70-A – 9600-224 Ribeira Seca RG – São Miguel – Açores; - por email, para salvadorpereirasantos@hotmail.com. E, já sabe, não se esqueça de identificar a solução enviada com o seu nome (ou com o pseudónimo adotado), nem de indicar a pontuação que atribui ao enigma proposto pelo confrade Verbatim (entre 5 a 10 pontos, em função da sua originalidade, qualidade e grau de dificuldade). Recordamos mais uma vez que o vencedor do concurso de produção de enigmas policiários “Mãos à Escrita!” será encontrado através da pontuação média atribuída pelos participantes do torneio de decifração “Solução à Vista!” e pelo orientador desta secção.  
Monday, July 30, 2018
  O DESAFIO DOS ENIGMAS - edição de 30 de julho de 2018 O POLICIÁRIO DE FERNANDO PESSOA EM TEMPO DE FÉRIAS Quando estamos apenas a dez dias do final do prazo para o envio das propostas de solução da prova nº. 3 do torneio de decifração “Solução à Vista!”, da autoria do confrade Rigor Mortis, lembramos quais os meios ao dispor dos leitores para o efeito: podem fazê-lo por email, através do endereço eletrónico salvadorpereirasantos-hotmail.com, ou por correio, para a morada do jornal AUDIÊNCIA GP (O Desafio dos Enigmas, rua do Mourato, 70-A – 9600-224 Ribeira Seca RG – São Miguel – Açores). E enquanto os nossos leitores ultimam as suas respetivas soluções, voltamos a falar do vocábulo “policiário” e do seu criador – o Poeta Fernando Pessoa. PESSOA E O POLICIÁRIO “Um dos poucos divertimentos intelectuais que ainda restam ao que ainda resta de intelectual na humanidade é a leitura de novelas policiárias” – disse um dia Fernando Pessoa. Há um certo exagero na afirmação do Poeta, mas esta é reveladora da importância que ele dava à escrita policiária, género de literatura que desde muito jovem começou a desenvolver. Ainda estava em Durban, na África do Sul, quando escreveu os seus primeiros contos policiários, com pseudónimos ingleses. Eram casos estranhos e bastante curiosos, influenciados pela obra de Edgar Allan Poe e Arthur Conan Doyle, e de outros autores famosos à época. Nessas histórias em inglês, Fernando Pessoa tinha criado o ex-sargento William Byng; em Portugal, em 1912/13, inventaria um “raciocinador” chamado Abílio Fernandes Quaresma, “decifrador de charadas”. Descrito como um “asceta da Baixa”, de fisionomia deprimida e fraca, um homem abatido, apagado, amarrotado, “gauche”, alcoolizado, fumando charutos baratos, Abílio Quaresma tem uma personalidade de grande afinidade com o próprio autor e a cidade onde decorre a atenção confunde-se com a Lisboa de Bernardo Soares, antiépica e baça. Os desassossegos estão por lá, em sentimentos exteriorizados que revelam “o excesso de vida interior que não permanece interior” em que vivia Pessoa no momento em que criou “o raciocinador”, exatamente na mesma altura em que se aproxima da elaboração das múltiplas personalidades dos seus heterónimos mais conhecidos. Os próprios textos sobre Abílio Quaresma acabariam, aliás, por ser assinados também por um heterónimo, um tal Pero Botelho. Estes textos policiários de Fernando Pessoa estão reunidos nos volumes “Quaresma, Decifrador – As Novelas Policiárias” (2008) e “Histórias de Um Raciocinador e o ensaio História do Policiário” (2012), editados por Ana Maria Freitas e publicados pela Assírio & Alvim, cuja leitura se aconselha vivamente. E para aguçar o apetite do desfrute destas obras, aqui deixamos (com a devida vénia) um breve resumo de uma apreciação crítica do poeta Pedro Mexia sobre as incursões de Fernando Pessoa na escrita policial (ou policiária, como ele sempre a preferiu qualificar) e a personagem principal desta sua menos conhecida faceta literária: O “RACIOCINADOR” QUARESMA Excerto de texto de Pedro Mexia “Os contos policiais de Fernando Pessoa parecem-se com muitos dos seus outros textos: são estrangeirados, cerebrais, fragmentários, inquietos. A diferença especifica consiste na conceção do ato criminoso como uma espécie de ato poético: uma exasperação dos nossos impulsos e contradições, com existência plausível no mundo e existência categórica na cabeça. (…) Os «inquéritos» de Quaresma não têm os «factos» em grande conta, e atêm-se sobretudo aos «raciocínios». Quaresma, que se diz um «médico sem clínica», encara os «casos» como se fossem «estudos de caso». Interessa-se pela «sintomatologia dos acontecimentos», mais do que pelos acontecimentos, e propõe um «diagnóstico», mais do que uma cura. Em vez de esmiuçar o caso concreto, como Holmes, teoriza veridicamente o caso abstrato, como o nosso contemporâneo doutor House. Quaresma é um homem «sozinho com a análise». E orgulha-se de ser desatento. Ele não precisa daquela atenção científica ou positivista às coisas que aconteceram factualmente; prefere conceber ou que pode ou não acontecer às pessoas, a norma mas também a exceção, a lógica mas também a patologia, o deliberado e o inconsciente, o óbvio e o incongruente. Um célebre conto de Edgar Alan Poe, «A Carta Roubada», baseado na ideia de que aquilo que não se encontra está afinal à vista de todos, é uma influência decisiva, e várias vezes citada. Quer investigue roubos ou desaparecimentos, assassinatos inexequíveis ou envolvimentos com sociedades secretas, Quaresma põe hipóteses, a que chama «palpites», e que o distinguem dos métodos usados pelos polícias, advogados ou juízes com quem se cruza. Porque as hipóteses de Quaresma não precisam verdadeiramente de trabalho de campo ou de produção de prova, ou seja, daquilo a que comummente se chama «investigação». Ele parece-se menos com um detetive do que com um génio da rubrica policiária de um jornal, raciocinando com generalizações sobre a natureza humana, com casos-tipo e casos atípicos, com probabilidades e implausibilidades, e com a consciência de que a alma humana é um abismo, por isso nunca a encontraremos na ponta do bisturi. Só um homem com um entendimento extrapolicial das matérias policiárias podia protagonizar estas histórias, e não é por acaso que somos informados que Quaresma se dedicou a estudar a verdadeira identidade de Shakespeare: assunto de um biógrafo, de um bibliófilo, de um académico, de um ficcionista, assunto conjetural, baseado em nada ou quase nada, uns documentos escassos, umas datas, umas bizarrias, umas suposições”. O POLICIÁRIO NA PRAIA Com a maioria dos nossos leitores a banhos, iremos aliviar os prazos de envio das propostas de soluções nas próximas provas do torneio “Solução à Vista!”. Assim, os prazos de resposta às provas nºs. 4 e 5, que manterão a data de publicação regulamentarmente prevista, decorrerão até aos dias 18 de setembro e 18 de outubro, respetivamente. Ou seja, os concorrentes terão mais oito dias para elaborar as suas respetivas soluções. Posto isto, aproveitamos o ensejo para desejar umas excelentes férias aos nossos “detetives” que ainda as não gozaram, recordando os cuidados a ter com a exposição ao sol. E, por último, uma sugestão: na praia ou na esplanada, devidamente protegidos dos raios ultravioletas, aproveitem as pausas da diversão com a família para a leitura de um bom livro, por exemplo um dos que acima são referidos, assinados por um dos maiores poetas lusos de sempre, e descubram os “raciocínios” de Quaresma, o Decifrador.  
Friday, July 20, 2018
  O DESAFIO DOS ENIGMAS - edição de 20 de julho de 2018 A ORIGEM DO VOCÁBULO POLICIÁRIO NA LÍNGUA PORTUGUESA Alguns dos leitores que só agora tomaram contacto com esta secção questionaram-nos sobre a existência do vocábulo “policiário” no nosso idioma, uma vez que não o encontraram em nenhum dos dicionários de língua portuguesa consultados. Assim, e antes de passar à publicação da solução do autor do enigma que constitui a segunda prova do torneio de decifração “Solução à Vista!”, e respetiva pontuação das performances dos “detetives” em competição, transcrevemos um texto do nosso confrade Luís Pessoa, com a promessa de desenvolvermos este assunto na próxima edição, o que nos levará à prosa de um dos nossos maiores poetas: Fernando Pessoa. O POLICIÁRIO SEGUNDO FERNANDO PESSOA Texto de Luís Pessoa A língua portuguesa não é, felizmente, um amontoado de palavras que compõe um dicionário. E não abona em favor daqueles que, num assomo de virilidade linguística, correm de fio a pavio sucessivos dicionários, à procura daquilo que os seus cultores já adotaram. Vem isto a propósito de uma polémica antiga em torno do vocábulo “policiário”, que muitos teimam em considerar inexistente por não figurar em dicionários. Mas há um fator decisivo. Um dia alguém afirmou que a sua pátria era a língua portuguesa e esse alguém foi Fernando Pessoa… E ninguém contesta tal afirmação, de tal forma entra pelos olhos dentro!... Mas disse mais esse senhor, nomeadamente numa carta (segundo Fernando Luso Soares, escrita em 13 de fevereiro de 1935 ou, segundo a edição das obras em prosa de Fernando Pessoa, do Círculo dos Leitores, e dos textos de “Crítica e Intervenção”, da editora Ática, escrita em 13 de janeiro do mesmo ano de 1935): “Quando às vezes pensava na ordem de uma futura publicação de obras minhas, nunca um livro do género de Mensagem” figurava em número um. Hesitava entre se deveria começar por um livro de versos grande – um livro de umas 350 páginas –, englobando as diversas sub personalidades de Fernando Pessoa ele mesmo, ou se deveria abrir com uma novela policiária, que ainda não consegui completar.” E em 20 de janeiro do mesmo ano de 1935, retomando essa carta, em resposta a outra de Casais Monteiro, reafirma: “Até à data que indico como provável para o aparecimento do livro maior, devem estar publicados ‘O Banqueiro Anarquista’ (em nova forma e redação), uma novela policiária (que estou escrevendo e não é aquela a que me referi na carta anterior)…” Fernando Pessoa e as novelas policiárias, que não acabou nunca, traduzem uma faceta quase desconhecida do poeta, mas a sua Série Quaresma, que engloba “O Caso Vargas”, “O Roubo do Quarto Fechado”, “A Morte de D. João”, “A Carta Mágica”, “O Roubo da Quinta das Vinhas”, “O Triplo Fecho” e “A Janela Estreita”, em que o seu herói e investigador é o Dr. Abílio Fernandes Quaresma, bem como outras novelas inacabadas, como “O Desaparecimento do Dr. Reis Dores”, “O Crime Arnot” e “O Caso do Banco Viseu”, traduzem, no seu conjunto, um marco importante na definição do policiário em Portugal. E se a língua não é viva, redescoberta em cada momento por todos os que acham que ela é a sua pátria, então, para que serve? Policiário existe, assim determinou o “mestre”. TORNEIO “SOLUÇÃO À VISTA!” Solução da Prova nº. 2 “Camarada Tempicos”, de A. Raposo Tempicos inicialmente pensou que as russas que tinham chegado a Portugal de manhãzinha, vindas do Rio de Janeiro, onde aprenderam uns rudimentos de português, durante a sua estadia no Brasil, deviam logicamente desconhecer o linguajar lisboeta. Mas acontece que elas utilizaram duas palavras que não são usadas no Brasil: “bica” e “elétrico”, que no Rio se transformam em “cafezinho” e “bonde”. Tempicos que de burro tem pouco pensou que estaria a ser enganado pelas manas russas e que até os nomes delas fossem falsos. Espreitou a respetiva lingerie quando de noite se levantou para ir à casa de banho. No regresso, viu que a calcinha da Nádia tinha bordado um “H” e a da Galina um “L”. E depois de ter verificado na net, Tempicos concluiu que os nomes delas não eram falsos porque no alfabeto cirílico, utilizado na Rússia, a letra N escreve-se com H e a letra G escreve-se com um L invertido. No que respeita à dúvida dos nomes ficou esclarecido, mas alguma coisa o levava a pensar que elas conheciam muito mais de Lisboa do que demonstravam. Se fosse anticomunista primário diria que elas eram aquelas espias que davam a injeção atrás da orelhinha dos portugueses… Pontuação e Classificação (após a 2ª. Prova) Surpreendentemente, apenas cinco “detetives” conseguiram obter a classificação máxima na segunda prova do Torneio “Solução à Vista!”. A esmagadora maioria dos concorrentes ficou “presa” nas letras inscritas nas calcinhas das duas gémeas russas, descurando as razões que levaram o detetive Tempicos a desconfiar das manas. E curiosamente houve também quem chamasse a atenção para o facto de as duas irmãs usarem as palavras “bica” e “elétrico”, em vez de “cafezinho” (ou “expresso”) e “bonde” – expressões utilizadas no Brasil –, não se referindo, porém, às letras insertas nas calcinhas das manas, iniciais dos seus nomes no alfabeto cirílico… 1º. Detetive Jeremias (13+11): 24 pontos; 2º. Inspetor Mucaba (10+13): 23 pontos; 3º. Madame Eclética (10+12): 22 pontos; 4º. Daniel Falcão (12+9): 21 pontos; 5ºs. Ma(r)ta Hari (10+10) e Zé de Mafamude (10+10): 20 pontos; 7ºs. Arc. Anjo (10+9), Bernie Leceiro (11+8), Carlota Joaquina (10+9), Gomes (10+9) e Martelo (10+9): 19 pontos; 12ºs. Abrótea (10+8), Ariam Semog (10+8), Bigode (10+8), Broa de Avintes (9+9), Charadista (10+8), Chico de Laborim (10+8), Haka Crimes (10+8), Holmes (10+8), Inspetor Guimarães (10+8), Inspetor Madeira (10+8), Necas (10+8), Pena Cova (10+8), Rigor Mortis (10+8) e Talismã (10+8): 18 pontos; 26ºs. Beira Rio (10+7), Chico da Afurada (9+8), Detetive Bruno (10+7), Santinho da Ladeira (10+7) e Solidário (10+7): 17 pontos; 31ºs. Mascarilha (8+8) e Vitinho (9+7): 16 pontos; 33º. Bota Abaixo: (7+8): 15 pontos. Nota: Por lapso, não foi considerada na classificação anterior a pontuação obtida pelo “detetive” escalabitano Bigode (10 pontos) na primeira prova do torneio, situação que foi agora corrigida. TORNEIO “MÃOS À ESCRITA!” As avaliações feitas pelos 33 solucionistas e pelo orientador da nossa secção ao enigma “Camarada Tempicos”, de A. Raposo, concorrente aos prémios em disputa no torneio de produção policiária “Mãos à Escrita!”, resultaram na seguinte pontuação média final: 6,90 pontos. Com esta pontuação, A. Raposo assume a liderança do torneio, com mais uma décima que Daniel Gomes.  
Tuesday, July 10, 2018
  O DESAFIO DOS ENIGMAS - edição de 10 de julho de 2018 O ESTRANHO CASO DA MORTE DE LUÍS DA MATA Sem mais demoras, passamos a desvendar a terceira prova do nosso torneio de decifração, assinada por um dos nossos mais fiéis leitores e dedicado participante nas iniciativas que têm animado esta secção, distinguido com prémios na decifração de enigmas e na produção de contos. Prova nº. 3 “As Três Poltronas”, de Rigor Mortis João Velhote dirigiu-se à porta da enorme vivenda vitoriana, onde o esperava um homem alto, vestido de cinzento-escuro, na casa dos sessenta anos. – Boa tarde – disse o homem. – É o senhor inspetor da Polícia? – Inspetor João Velhote. Foi você que chamou a Polícia? – Sim, inspetor, fui eu. Sou Antero Rodrigues, o curador desta mansão, sede do War Veterans British Club. Acompanhe-me, por favor. Atravessando o hall de entrada e percorrendo um longo corredor, chegaram a uma sala ampla, com mobiliário escasso mas rico. Cada uma das paredes laterais tinha duas portas, uma delas marcada com um discreto sinal WC. À frente, uma portada de enormes proporções, de painéis de vidro, virada para o não menos magnífico jardim das traseiras. No centro da sala, a uns dois metros da porta para o jardim, três poltronas de cabedal de espaldar alto e amparos de cabeça, uma de frente para o jardim, as outras paralelas a este, uma de cada lado da primeira, sobre um espesso tapete oriental. À direita de cada poltrona, uma mesa de apoio, cada uma delas com um copo cheio e uma tacinha com amendoins, duas delas com revistas e jornais em cima. Na poltrona da esquerda estava um corpo de homem, ensanguentado, com o tronco caído sobre os joelhos. No chão, à frente, uma pistola com silenciador. Atrás, aos pés da mesa de apoio, duas revistas e folhas soltas de jornais, meio amarrotadas e espalhadas no chão. Bastante sangue no tapete, ao centro entre as três poltronas. Observando o cadáver, Velhote notou um orifício de bala na testa, logo acima dos olhos. Na nuca, também ao centro, outro orifício. Intrigado, o inspetor não encontrou nenhum projétil incrustado nessa poltrona. Mas, levantando os olhos para a que estava em frente, viu logo o buraco deixado pela bala, à altura da cabeça. – Conte-me lá, senhor Rodrigues… – convidou o inspetor. – Bom… Aquele é o senhor Luís da Mata, um dos quatro sócios fundadores do clube. Os outros foram os senhores António de Carvalho, Carlos dos Santos e Lord George Kelvin, barão de Windlecroft. Lord Kelvin faleceu há quatro meses. Milionário, solteiro e sem descendência, foi ele quem adquiriu este terreno e mandou construir esta mansão, há uns cinquenta anos, para ser sede do clube. Ao falecer, deixou toda a sua fortuna ao clube, garantindo a sua preservação com os padrões que lhe conferiu. Os quatro combateram na 2ª Guerra Mundial, no mesmo Regimento, tendo sido condecorados por atos heroicos no Extremo Oriente, na luta contra os Japoneses. Segundo sei, os três portugueses salvaram a vida de Lord Kelvin numa terrível batalha na Indochina. – O clube tem agora dez membros, hoje nonagenários. Todos vêm cá regularmente, mas os três senhores que mencionei estão cá todos os dias. Chegam a meio da manhã e sentam-se nesta sala, lendo os jornais e revistas do dia até à hora de almoço. Almoçam aqui no clube, rigorosamente às 13h, e só saem a seguir, pelas três ou quatro da tarde. O senhor António senta-se sempre precisamente na poltrona onde está o corpo do senhor Luís, que se costuma sentar na poltrona oposta. A do meio, virada para a porta, é sempre ocupada pelo senhor Carlos. – Embora tenham sido no passado grandes amigos, certamente por terem estado juntos em situações muito difíceis, não se falam desde que o barão morreu. Travaram-se de razões, julgo que por cada um deles entender que Lord Kelvin não lhes deixou a sua fortuna devido aos conselhos que os outros dois lhe tenham dado. – Luís da Mata sentava-se por vezes na poltrona onde está o corpo? – perguntou o inspetor. – Nem por sombras! Nenhum deles se sentaria noutra que não fosse a “sua” poltrona! Nem toleraria sequer que qualquer dos outros se sentasse na “sua” poltrona! Ou que tocasse num objeto “seu”! – Têm sido pessoas saudáveis? – Nunca os vi doentes, nem mesmo com uma gripe. São fisicamente muito fortes e mantêm toda a sua lucidez e inteligência, apesar dos noventa e tal anos que têm! – A pistola que ali está, era do senhor Luís da Mata? – Não senhor. É do senhor Carlos, que a tem guardada, bem como o silenciador, no seu armário privado aqui no clube. Antes que me pergunte… Cada membro tem um armário privado no clube, fechado com cadeado, onde pode guardar o que bem entender. Todos os armários estão no corredor para onde dá aquela porta – Antero apontou para o lado esquerdo. – Os cadeados são normais, mas as chaves estão todas na posse do membro proprietário. Acontece que o senhor Carlos, tal como o senhor António, costuma por vezes praticar tiro num local que temos para o efeito e, por isso, vi muitas vezes um e outro com a respetiva arma. O uso do silenciador é uma imposição, para não perturbar os outros membros do clube. – Hoje, estavam aqui os três? – Chegaram pelas 10h, como sempre, e sentaram-se nas suas poltronas, onde passaram a manhã. Servi-lhes os aperitivos habituais às 12h30, como faço todos os dias – Gin e tónica, nunca bebiam outra coisa. Nesse momento o senhor António levantou-se e foi à casa de banho, àquela ali à esquerda. Uns minutos depois, quando eu regressava à cozinha, foi o senhor Carlos que se levantou e foi também à casa de banho, mas àquela ali do lado direito. O senhor Luís manteve-se sentado, a ler o jornal em silêncio. Devo dizer que este cerimonial era repetido todos os dias, sem exceção – os dois senhores ficavam um bom quarto de hora na casa de banho. – Às 13h voltei para os chamar para o almoço e deparei com esta cena… Fiquei tremendamente chocado, como compreenderá! – E os outros dois senhores? – Quando aqui cheguei não estavam na sala, nem nas casas de banho. Encontrei-os na varanda da sala de jantar e contei-lhes da morte do senhor Luís, logo antes de telefonar para a Polícia. – Muito bem… Obrigado pela sua minuciosa descrição… Chame lá os outros dois senhores, porque quero falar com eles, naturalmente. Ainda que julgue já saber o que aqui aconteceu… DESAFIO AO LEITOR Caro Leitor, é a sua vez! Baseado na minuciosa descrição do Antero Rodrigues, curador do War Veterans British Club, qual é a sua conceção do que aconteceu naquele dia, naquela sala? Terá Luís da Mata cometido suicídio? Ou terá sido morto por algum dos seus dois ex-amigos? E se foi um homicídio, quem o terá cometido? Justifique o seu raciocínio, pormenorizadamente, através de relatório a enviar para o orientador da secção, até dia 10 de agosto, por um dos seguintes meios: - por correio, para AUDIÊNCIA GP / O Desafio dos Enigmas, rua do Mourato, 70-A – 9600-224 Ribeira Seca RG – São Miguel – Açores; - por email, para salvadorpereirasantos@hotmail.com. E, já sabe, não se esqueça de identificar a solução enviada com o seu nome (ou com o pseudónimo adotado), nem de indicar a pontuação que atribui ao enigma proposto pelo confrade A. Raposo (entre 5 a 10 pontos, em função da sua originalidade, qualidade e grau de dificuldade). Recordamos mais uma vez que o vencedor do concurso de produção de enigmas policiários “Mãos à Escrita!” será encontrado através da pontuação média atribuída pelos participantes do torneio de decifração “Solução à Vista!” e pelo orientador desta secção.  
Saturday, June 30, 2018
  O DESAFIO DOS ENIGMAS - edição de 30 de junho de 2018 MAIS UM CONTO DO CONCURSO “UM CASO POLICIAL EM GAIA” Como prometido numa edição anterior, publicamos hoje o texto original submetido pelo confrade António Raposo ao concurso “Um Caso Policial em Gaia”, com o qual conquistou o terceiro lugar da classificação geral, onde é notório o seu peculiar sentido de humor. Boa leitura! O ROUBO DA ABELHA GAIA Conto de António Raposo Advertência ao leitor: Para o leitor mais distraído, ou até indiferente, garantimos que esta história é uma verdadeira história policial. Entram ladrões, há roubo, há chantagem. Querem sangue? Não sou portista nem sou gaiense. Gosto mais do Porto visto de Gaia e mais de Gaia visto do Porto. Afinal o que eu gosto mesmo é do Rio Douro. Sempre neutral acorrentado entre as margens, obrigado a correr para chegar ao mar antes da maré cheia. Eu sou como ele. Independente e imparcial. E se não o sou faço por isso. Pressiono-me. Um dia destes fui a Gaia para ver o Porto. Fui ao Jardim do Morro para ter a melhor vista do Porto. Gosto do casario a escorregar até cair na Ribeira. Gosto das cores das casas. Sobretudo gosto das muitas janelas de guilhotina. Coisas que mais ninguém tem senão o Porto. Mas a vida não é feita de olhares sonhadores. As coisas acontecem e muitas vezes estamos nós no meio do turbilhão e nem damos por isso. Foi o que me sucedeu. Junto ao miradouro onde me encontrava fica a quinta dos Smith – uma família inglesa que está em Gaia há várias gerações. O Sr. Smith que atualmente gere os negócios da família tem um “hobby” e resolveu mandar construir à roda da quinta um alto muro e no interior tem um conjunto de colmeias e uma plantação de ervas aromáticas para as abelhas deixarem o mel com sabor a erva-cidreira. Mas o mais importante da quinta é um exemplar único e admirado pelos amantes da apicultura de todo o mundo – a abelha Gaia! Vem gente de todo o mundo ver o fenómeno, desde os confins da Melanésia, até às Ilhas Vanuatu, passando pela Austrália e Nova Zelândia, só para terem o prazer de admirar o bichinho ao vivo. Pois bem, estava eu ali a admirar a paisagem quando surgem, de lado nenhum, dois tipos encapuzados que em menos de um fósforo treparam o muro e saltaram para o interior da propriedade. Passados talvez uns dez minutos, nem tanto, de novo saltaram para o exterior e desapareceram da minha vista, a correr. Ainda consegui distinguir uma coisa: um deles levava na mão uma gaiola pequena, tipo de “grilo”. No dia seguinte vinha no jornal em grandes parangonas que alguém roubara a abelha Gaia! E depois a notícia explicava que andava ali uma grande rivalidade entre os “Dragões da Foz” e a rapaziada de Gaia. O Zeca Maluco chefe de fila dos tais “Dragões da Foz” tinha afirmado ao jornal que agora é que se ia ver quem dava cartas… Saltar a propriedade de um ilustre gaiense tem os seus custos e não tardou muito que a polícia andasse a “cheirar” a casa do Zeca. A malta do Porto, bairrista como é, tomou o partido. Os de Gaia reuniram-se na Junta a fim de tomar providências. As coisas começaram a esquentar. A malta de Gaia topou o comité central dos “Dragões da Foz” a comer umas francesinhas no restaurante da Rosa Cabeluda, da Cedofeita. Cercaram a rua e foi um ver se te avias. O tacho com o molho das francesinhas foi deliberadamente derramado sobre o Zeca Maluco. A jogar à defesa este agarrou-se à Rosa Cabeluda, para se defender, e acabaram os dois no chão da cozinha, regados com três garrafas de vinho do Porto e dois frascos inteiros de “maionaise”. Entretanto ouve-se o ruído característico do carro da polícia e toda a gente começou a correr para todos os lados, ficando no chão, chorosa e descomposta, a Rosa Cabeluda, uma moça gordalhufa cujo cabelo era mais que muito, mas agora completamente barrado de molho de francesinha e “maionaise”. Se o Zeca Maluco já não se tivesse “pirado” lambia-a toda, carago! Soaram petardos nas sedes dos clubes locais e às duas por três já ninguém sabia bem do que andava a perseguir. Entretanto Zeca Maluco tinha em casa a gaiola para grilos com a abelha Gaia e para a alimentar tinha posto uma folha de alface. Se era bom para os grilos seria bom para a abelha Gaia. Só que a bichinha nem tocava na folha – seria embirração? Quem desvendou o mistério foi a Licas das Tranças que andava enrabichada com o Zeca –um rapaz de olhos grandes, inteligentes. A Licas das Tranças foi lá a casa do Zeca e ao ver a gaiola e a folha de alface desmanchou-se a rir e a gozar com ele. - Então não sabes? - O quê, carago? - As abelhas não comem alface! Tens que devolver a abelha à colmeia senão ela morre à fome. Vai negociar com o Sr. Smith – não sei – faz uma proposta de troca, ela por ela. Zeca ficou uma boa meia hora parado a fitar a gaiola. - Já sei! Vou telefonar àquele “morcão” do inglês e vou negociar. Foi pedir o telemóvel emprestado ao primo Mário que tinha o número do telefone do inglês. E com um ar de negociante abastado falou para o aparelho. - Alô! Alô! É o Mister Smith que está ao telefone? Daqui fala o proprietário atual da abelha Gaia. Seguiu-se um silêncio profundo e uma tosse, como se alguém do outro lado estivesse a arrumar os factos. - Sim, daqui fala Smith. Estou pronto para negociar. - Bem, o senhor amanhã põe uma camioneta de “fruta” na rua da Cedofeita e estarei lá para fazer a troca – ela por ela. - Pode ser às onze horas em ponto? - Combinado! No dia seguinte às onze da manhã estava o Zeca Maluco com uma caixa de cartão onde escondia a gaiola da abelha Gaia. Uma camioneta de caixa fechada surgiu na curva da estrada e o Sr. Smith a fazer de motorista saiu da cabina. A troca fez-se e foi imediata. Smith recebeu o caixote, deu a chave da camioneta ao Zeca Maluco recomendando que a camioneta era para devolver vazia. Zeca – excitado – abriu a caixa da camioneta e lá dentro, amontoadas umas sobre as outras, uma quantidade enorme de pera rocha! Zeca Maluco não esperava por aquela fruta. O que ele queria era uma camioneta da “fruta” que se costumava dar aos árbitros para ajeitar os resultados.  
Tuesday, June 19, 2018
  O DESAFIO DOS ENIGMAS - edição de 20 de junho de 2018 AS PRIMEIRAS PONTUAÇÕES SÃO HOJE CONHECIDAS Em cumprimento do respetivo regulamento, são hoje conhecidas a solução “oficial” da primeira prova do nosso torneio de decifração “Solução à Vista!” e as pontuações alcançadas pelos concorrentes que apresentaram os seus relatórios dentro dos prazos previstos. Foram 32 os “detetives” que disseram “presente!” e apenas cinco deixaram pontos pelo caminho. Mas, nem para estes, nada está definitivamente perdido, porque a competição ainda agora começou e há muito caminho para fazer até chegar à meta final. Para já, o pódio é composto por três nomes que nos são familiares, com excelentes provas dadas no torneio de decifração realizado o ano passado, tendo no seu encalço um grosso pelotão de policiaristas de grandes recursos e cheios de vontade de tomar de assalto os lugares cimeiros da classificação. Está tudo em aberto, portanto! Pelo caminho, até chegar à meta final do torneio, acontecerão com certeza alguns tropeções na tabela classificativa por via das escorregadelas nas armadilhas colocadas nos enunciados dos enigmas pelos seus autores, quer por parte dos concorrentes mais experimentados, quer por parte dos mais novatos nestas andanças policiárias, pelo que se aconselham leituras muito atentas dos textos submetidos a decifração. Todo o cuidado é pouco, porque por um ponto se ganha, por um ponto se perde, e muitas vezes perdem-se pontos por episódios de distração que levam ao cometimento de erros quase infantis. Por outro lado, na elaboração das propostas de solução, convém não desvalorizar nenhum pormenor, por mais irrelevante que ele pareça, porque muitas vezes são esses pormenores que fazem a diferença e permitem a conquista pontos suplementares, quase sempre determinantes nas grandes vitórias. TORNEIO “SOLUÇÃO À VISTA!” Solução da Prova nº. 1 “O Enforcamento do Vigilante”, de Daniel Gomes O inspetor Macunaíma desvalorizou os depoimentos recolhidos durante as investigações, que poderiam indiciar a possibilidade de se estar perante um caso de homicídio, caso não fosse completamente impossível alguém ter estado na fábrica naquela tarde, no momento do enforcamento do vigilante Ventura Marques. As portas que comunicam com a dependência onde se encontrava o cadáver estavam todas chaveadas pelo interior, com as chaves na fechadura, sendo impossível a sua abertura pelo lado contrário, sem arrombamento, como se verificou nas várias tentativas feitas pela polícia na porta que comunica com o exterior. Por outro lado, o inspetor constatou, através das bandeiras das portas, feitas de vidro transparente, a ausência de quaisquer pessoas ou a inexistência de algo que pudesse estar de algum modo associado à morte do vigilante. Face ao acima exposto, a morte de Ventura Marques, mesmo que esteja de alguma maneira relacionada com as suas alegadas más relações com o colega Jorge Cunha ou com o seu suposto envolvimento amoroso com uma tal funcionária da empresa de congelados, de seu nome Leninha, não se ficou a dever a um qualquer ajuste de contas ou discussão de desfecho trágico, por via de um desses casos. Não se está, por isso, na presença de um crime de homicídio. Aliás, muito antes de ouvir os depoimentos que desvendaram esses casos de reprovável relacionamento, já se fizera luz no cérebro do inspetor Macunaíma sobre a forma como ocorrera a morte do vigilante, o que deixou toda a gente espantada face à sua rapidez de raciocínio. E a verdade é que passara pouco mais de quinze minutos desde a chegada do consagrado inspetor ao local da ocorrência!... Vejamos, então, como ocorreu a morte do vigilante Ventura Marques. Os agentes da PSP deslocados para o local depararam com o pobre homem preso pelo pescoço a uma corda amarrada na tubagem da água que passa junto ao teto e com os pés a cerca de meio metro do chão, já sem sinais de vida, chamando de imediato os serviços de emergência médica, que se limitaram a declarar o óbito e a comprovar que a morte fora devida a enforcamento. Só que no chão, alagado de água, não havia à vista nenhum objeto, um banco, uma cadeira, um caixote, nada em que o infeliz Ventura Marques se pudesse ter empoleirado para cometer aquele seu desesperado ato. Mas o que passou despercebido aos olhos dos agentes da PSP, não escapou ao privilegiado cérebro e capacidade de raciocínio do inspetor Macunaíma: o chão alagado de água significava que o vigilante usara um cubo de gelo com 50 cm de altura para cometer o suicídio. Pontuação e Classificação (após a 1ª. Prova) O pelotão do torneio “Solução à Vista!” é constituído no seu arranque por 32 concorrentes, treze dos quais participam pela primeira vez nas competições organizadas pela nossa secção. Entre os “detetives” que marcam presença no torneio, destacamos seis sérios candidatos à vitória final: Daniel Falcão, Detetive Jeremias, Rigor Mortis, Bernie Leceiro, Airam Semog e Abrótea, que carregam um historial de grande relevo na prática da modalidade. Para já, três deles conquistaram os pontos especiais que lhes garantem lugar no pódio: 1º. Detetive Jeremias: 13 pontos; 2º. Daniel Falcão (ex-Vimaranes): 12 pontos; 3º. Bernie Leceiro: 11 pontos; 4ºs. Abrótea, Arc. Anjo, Ariam Semog, Beira Rio, Carlota Joaquina, Charadista, Chico de Laborim, Detetive Bruno, Haka Crimes, Holmes, Gomes, Inspetor Guimarães, Inspetor Madeira, Inspetor Mucaba, Madame Eclética, Ma(r)ta Hari, Martelo, Necas, Pena Cova, Rigor Mortis, Santinho da Ladeira, Solidário, Talismã e Zé de Mafamude: 10 pontos; 28ºs. Broa de Avintes, Chico da Afurada e Vitinho: 9 pontos; 31º. Mascarilha: 8 pontos; 32º. Bota Abaixo: 7 pontos. TORNEIO “MÃOS À ESCRITA!” As avaliações feitas pelos 32 solucionistas e pelo orientador da secção ao enigma “O Enforcamento do Vigilante”, de Daniel Gomes, concorrente aos prémios em disputa no torneio de produção policiária “Mãos à Escrita!”, resultaram na seguinte pontuação média final: 6,80 pontos.  
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