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sexta-feira, julho 03, 2020
  O DESAFIO DOS ENIGMAS - edição de 5 de julho de 2020

     UM NOVO CONTO DO CONCURSO “UM CASO POLICIAL EM GAIA”
No momento em que se assinala o 4º. Aniversário da nossa secção (nascida a 1 de julho de 2016), publicamos o segundo conto do concurso “Um Caso Policial em Gaia”, de Inspetor Boavida. O pseudónimo “esconde” uma personalidade ligada à atividade cultural, com fortes raízes afetivas ao concelho de Vila Nova de Gaia, mais especificamente à freguesia de São Pedro da Afurada, local de nascimento do “herói” da história revisitada no original que hoje se publica. A ação desenrola-se no último quartel do século passado, gloriosos tempos de muitos sonhos germinados pela esperança nascida com a Revolução de Abril. Só que uns baseavam os seus desejos na “lei do menor esforço”, buscando nos mais diversos atos ilícitos ou em miríficos golpes de sorte a fuga ao negro destino de uma vida marcada pelo infortúnio e pelo crime. É este o retrato da principal personagem do conto em apreciação nesta edição da nossa secção, cujo desfecho é verdadeiramente surpreendente. Ora vejam lá como se construiu a história de vida deste homem:

CONCURSO “UM CASO POLICIAL EM GAIA”       
Conto nº. 2    
“O Negro Manto da Vida ou As Cinco Cores da Sorte”, de Inspetor Boavida
Esta história aconteceu no último quartel do século passado, mas ainda hoje, em pleno século XXI, é contada pelos mais velhos que se movimentam pelo mundo do crime na cidade de Gaia, entre os quais se destaca um homem de muitos músculos e poucos miolos que dá pelo nome de Seca Pipas, alcunha que ganhou depois uma noite em que ficou fechado numa das Caves de Vinho do Porto, sem conseguir pregar olho. É ele que tem por hábito contar o que se passou com um dos filhos da terra, entretanto falecido, seu comparsa em muitos dos crimes por si cometidos nos idos de 1980, de quem era um verdadeiro amigo do peito. A história passou-se mais ou menos assim:
 Segismundo Moleza, o mãozinhas de veludo da Afurada, nem queria acreditar no que os seus olhos viam. Estava em jogo um triplo jackpot do totoloto, um prémio de mais de cinco milhões de euros, e as seis bolinhas coloridas foram saindo de acordo com a sua aposta habitual de todas as semanas. Primeiro veio a “azulinha” número cinco (dia do seu aniversário), depois caiu a “roxinha” número quarenta (exatamente os dias de prisão que o tribunal decretou pelo seu primeiro crime), de seguida apareceu a “laranjinha” quinze (a idade que tinha quando foi expulso do colégio onde o internaram, ainda criança, após a condenação de seu pai por crime de homicídio na pessoa da própria mulher), de imediato surgiu na boca da grande esfera da sorte a “verdinha” com o vinte e três (número da cama do hospital onde foi parar quando o pai da sua primeira e única namorada “à séria” lhe deu uma valente sova de “caixão à cova”), algumas décimas de segundo depois saltou a “vermelhinha” trinta e seis (precisamente os dias que viveu de cama e mesa com a Micas, uma jovem moçoila transmontana que ele conheceu na grande cidade e que o abandonou sem qualquer explicação de um dia para o outro) e para terminar saiu mais uma redondinha “laranja”, precisamente aquela que tem o número de Nossa Senhora de Fátima, a quem ele reza todas as noites antes de adormecer pedindo sorte e proteção.
A sua fé inabalável na Santa dos três pastorinhos dera “frutos”. Ele podia definitivamente cumprir os mais íntimos e insondáveis desejos de sempre e realizar os seus mais secretos e libidinosos sonhos: percorrer meio mundo sem pressas de regressar, sempre acompanhado das mais jovens e sedutoras mulheres – namorar com uma bela e sensual italiana numa gôndola em Veneza, banhar-se nas trópicas águas de Havana com uma escultural nativa, sambar nas ruas de Copacabana ao lado de uma provocante morena carioca, adormecer nos braços de uma bem despida loira nórdica num luxuoso hotel das “Américas” e acordar a meio da manhã no leito quente e perfumado de uma ruiva mulher vinda de nenhures, sem lugar nem destino certo, depois de uma noite de bebidas, fumo e jogo num qualquer Casino de Las Vegas – e viver, enfim, viver finalmente um vida digna desse nome, sem ter que passar os dias abandonado e só, absolutamente só, a contar os trocos e a fugir do que parecia ser o seu destino de permanente suspeito aos “olhos” da justiça sempre que acontecia um crime e não se sabia a identidade do seu autor, tudo isto graças a seis numeradas bolas coloridas e... à proteção de Nossa Senhora de Fátima.
O negro manto que cobre toda a sua vida, em alto contraste com as cinco cores da sorte que ora o bafejavam e com o branco véu da Santa de sua devoção em que ele sempre acreditara, desaparecera do seu horizonte e tudo à sua volta parecia luzir de um brilho incandescente. Ele, que nascera de uma relação sem futuro, parido numa noite gélida de novembro num velho barracão abandonado em terras serranas vestidas de neve, e que nunca conhecera o calor do afeto, a dádiva do amor, a beleza da partilha dos sentimentos mais nobres e íntimos sem contrapartidas ou permutas pré-negociadas numa esquina ou em vão de escada, tinha ali na palma da mão uma grande fortuna à mercê dos seus dedos e um sol dourado ao alcance de um futuro que pretendia desenhar sobre um imenso azul claro e sem nuvens.
A partir de agora tudo seria diferente. O crime não seria mais o mote dos seus dias ou o pesadelo das suas noites mal dormidas em camas de insónias insistentes e vencidas a custo de muita imaginação e de sonhos coloridos sem guarida na verdade do seu quotidiano. Tudo isto se a voz grave, rouca e profunda do guarda Vicente e o barulho que fazia, com um molho imenso de chaves roçando pelas grades da sua cela, o não tivessem subitamente acordado para a dura realidade. Ali estava ele, abandonado em cima da enxerga da prisão para onde o atiraram na véspera, depois de ter sido apanhado em Lisboa em flagrante delito, acompanhado de uma velha e desconchavada prostituta, a viciar o peso de seis bolas que na noite seguinte entrariam na grande esfera da sorte para mais uma sessão multimilionária do concurso do Totoloto...

CONVITE AO LEITOR
E pronto, caro leitor. Agora o passo seguinte é seu. Para tal, renovamos o nosso convite à sua participação na escolha dos melhores contos. O processo é simples. A partir de hoje, tem trinta (30) dias para fazer a avaliação, em função da sua qualidade e a originalidade, do segundo conto do nosso concurso, da autoria de Inspetor Boavida, e enviar a respetiva pontuação, numa escala de 5 a 10 pontos, para o e-mail do orientador da secção (salvadorpereirasantos@hotmail.com).
A competição prossegue na próxima edição com a publicação do terceiro conto, desta vez com assinatura de Inspetor Mokada, repetindo-se o processo de avaliação crítica dos nossos leitores durante o mesmo espaço temporal de 30 dias. A sua colaboração é fundamental, caro leitor!

 
terça-feira, junho 23, 2020
  CONCURSO "UM CASO POLICIAL EM GAIA"
o desafio dos enigmas
Publicamos na íntegra o conto nº. 1 do concurso “Um Caso Policial em Gaia”. Os leitores que desejem participar na escolha dos melhores contos do concurso, podem enviar a pontuação atribuída a “Os Giraços de Mafamude”, de Madame Eclética, (5 a 10 pontos) até dia 20 de julho.

CONCURSO “UM CASO POLICIAL EM GAIA”       
Conto nº. 1    
“Os Giraços de Mafamude”, de Madame Eclética
Amélia era uma miúda estruturalmente alegre e desempoeirada, muito gira e dada à brincadeira. Espalhava o seu charme pelas redes sociais, facebook, twitter, instagram, onde foi conquistando seguidores atrás de seguidores sem temer que aquela sua aventura pelo mundo virtual viesse a degenerar numa qualquer invasão indesejada da sua vida privada. Até que um dia começou a ser assediada por um grupo de tarados que se autointitulavam “os mais Giraços de Mafamude”. Primeiro, começaram com uns piropos pueris e aparentemente inocentes, para depois se insinuarem com uns convites de cariz sexual, primeiro brejeiros e mais tarde ordinários e pornográficos, em qualquer das três contas por ela geridas nas redes sociais. Mas de nada valeu a sua pronta e forte reação contra aquelas atitudes nem o subsequente bloqueio das indesejáveis criaturas.
Os contactos passaram a ser feitos através do telemóvel e do telefone de rede fixa, sem que se percebesse como aqueles tarados conseguiram ter acesso aos respetivos números. Amélia deixou de atender as chamadas de números desconhecidos ou anónimos e as mensagens escritas passaram a ser a ferramenta de assédio, com uma catadupa de insultos e ameaças. Face a este comportamento, ela denunciou-os à polícia. Mas ao contrário do que se esperava, o resultado foi desastroso. É verdade que os telefonemas, as mensagens e os comentários nas redes sociais terminaram, mas eles passaram a esperá-la, em grupo, à porta de casa e do emprego, limitando-se a sorrir e a soltar frases de cariz sexual, como “és boa com’ó milho, meu pintainho”, “comia-te toda, minha pombinha”, “lambia-te dos pés à cabeça, meu chupa-chupa de chocolate.”
Amélia deixou de trabalhar, enfiou-se em casa, não saía com ninguém e mal comia. As noites eram muitas vezes passadas em claro ou assombrada por pesadelos, quando conseguia pregar olho, acordando nessas alturas em sobressalto e encharcada em suor, tremendo que nem varas verdes. De manhã, mais ou menos à hora em que habitualmente saía para o emprego, quando olhava pela janela, encoberta pelas persianas de seu quarto, lá estava o grupo de Mafamude. Invariavelmente, eles ficavam estacionados na rua defronte da casa dela, encostados à parede de olhos fixos na sua janela. E só desmobilizavam quando a polícia chegava junto deles, a seu pedido. Mas mal os agentes voltavam costas, lá vinham de novo os rapazes, como se não tivessem mais nada que fazer na vida a não ser incomodar a rapariga, que não sabia como agir.
Após frequentes apelos da mãe, Amélia abandonou de vez as redes sociais, onde era massacrada com frequentes provocações de teor sexual por amigos dos giraços de Mafamude. E aos poucos voltou a sair de casa, sempre na companhia de uma prima, um pouco mais nova, para se distrair em locais fora da cidade ou cumprir as consultas técnicas especializadas a que fora aconselhada. Nos intervalos em que a polícia punha os rapazes com dono, saíam ambas de casa e corriam para o lado oposto ao sítio por onde eles haviam fugido, diretas à estação de metro do Jardim do Morro. Aí, encobertas pela cobertura-abrigo da estação, esperavam calmamente até chegar as carruagens que as levavam a São Bento ou a Santo Ovídio. De São Bento rumavam a Espinho ou a Aveiro; de Santo Ovídio o destino era sempre um prédio azul da rua Soares dos Reis.
No terceiro esquerdo daquele velho prédio da rua Soares dos Reis, dava consultas de psicologia um jovem muito bem-parecido, recentemente formado, com fama de ser muito competente. Num desses dias de consulta, a priminha da Amélia ficou na sala de espera, como sempre acontecia, enquanto ela entrava no consultório do Dr. Paulo Mamede. Cabelo loiro comprido, com melenas caindo sobre as sobrancelhas espessas que encimam os seus brilhantes olhos verdes, um sorriso permanente nos lábios carnudos bem desenhados e uma voz cava e melodiosa. O sol entrava pelas altas janelas do consultório, dando ainda mais brilho ao rosto moreno do psicólogo, que esperava sentado a sua paciente, com as mãos pousadas sobre o tampo da secretária pejada de livros. Amélia avançou até ele, que lhe apontou a cadeira em sua frente, onde se sentou.
As pernas de Amélia tremiam, as mãos suavam e o rosto ruborizava, o que sempre acontecia nestas consultas. Esta era a terceira vez que o psicólogo a ouvia e ela já não sentia que conversava com um técnico de saúde. A conversa desta feita foi sobre música, sobre os seus gostos musicais mais propriamente. E ficou a saber que ele tinha mais uma coisa em comum com ela. Gostava de jazz! Tal como ela, tinha um especial prazer em ouvir Miles Davis, Bille Holiday, Chet Baker e Ella Fitzgerald, nomes maiores deste género musical criado no início do século XX pela comunidade negra de Nova Orleans. Disse ele que era um gosto herdado de seu pai e que tinha uma preciosa discoteca de vinil composta por temas jazzísticos, acabando por convidá-la a ouvi-los em sua casa, numa tarde em que não tivesse consultas, nomeadamente a um sábado.
O coração de Amélia começou a bater tão forte e tão descompassadamente, que se sentiu desfalecer. E o pior foi ainda quando o psicólogo disse que nessa noite havia um concerto de Jazz no Convento Corpus Christi. Ele ainda não tinha a certeza que pudesse ir, mas prometeu que faria todos os possíveis por comparecer. A consulta, que mais pareceu uma conversa entre amigos, passou depois por outros temas também do agrado de ambos. Falaram de cinema, de artes plásticas e teatro, concluindo ambos que estiveram algumas vezes no mesmo dia e no mesmo lugar, a assistir ao mesmo filme, a visitar o mesmo museu, a ver a mesma peça. No final, imediatamente antes das despedidas, ele recordou o concerto de logo à noite. E concluiu, dizendo que o receio de se confrontar com os tais “Giraços de Mafamude” não podia condicionar a sua vida.
Quando a prima Susana perguntou como havia corrido a consulta, Amélia só conseguiu balbuciar “correu bem”. O seu peito rebentava de felicidade, mas ela não podia confessar esse sentimento. E muito menos dizer de quem era a responsabilidade por aquele seu estado de espirito. Era a terceira vez que consultava o psicólogo Paulo Mamede, sempre por causa dos “Giraços de Mafamude”, e pela primeira vez percebeu que não lhe era indiferente como mulher. No caminho de regresso a casa, a Susana perguntou-lhe por diversas o que se passava com ela, tal era o seu estado de espirito. E quando a prima perguntou se queria que ela lhe fizesse companhia até à hora de deitar, o que acontecia com frequência, sobretudo depois das consultas ao psicólogo, Amélia respondeu de supetão: “Não, deixa estar, não vale a pena. Hoje sinto-me muito bem”.
Amélia não se sentia apenas muito bem naquele momento. Na verdade, ela nunca se havia sentido alguma vez melhor desde que se conhecia como mulher. Aquele homem tinha tudo o que ela imaginara como seria o seu futuro companheiro de vida, nas noites febris de desejo da adolescência. Havia algo nele que descontrolava os seus  sentidos, que a deixava perdida em sonhos que a remetiam para fantasiosas experiências sexuais. E agora só pensava na hora de o voltar a ver, logo mais, no convento de Corpus Christi, embalada por aquela louca paixão ao som de algumas das suas músicas de eleição, ao ritmo de jazz.
Quando chegou ao Convento Corpus Christi, atravessou o largo portão que dá acesso ao pátio do monumento na esperança de encontrar a qualquer momento o homem por quem se apaixonara. A entrada era livre, mas não era permitido o acesso ao local do concerto após a hora marcada para o seu início e tinha como condição a permanência obrigatória no espaço até ao final do espetáculo. Amélia olhou em redor e não viu Paulo. Aguardou mais um pouco e quando chegou ao limiar da hora do espetáculo resolveu entrar. A sala já estava repleta de pessoas e só conseguiu lugar na última fila da plateia. Olhou as nucas que se perfilavam na sua frente e em nenhuma delas conseguiu vislumbrar indícios da cabeça do “seu” Paulo. Uma delas tinha um cabelo loiro com algumas semelhanças, mas as dúvidas dissiparam-se quando se posicionou de perfil.
A pessoa que estava ao lado do loiro que a confundiu, voltou-se para este e… Amélia entrou em estado de choque. Era um dos “Giraços de Mafamude”! E ao lado desse estava outro. E mais outro. A rapariga ergueu-se de um salto e correu para a porta de saída da sala, que abriu a custo. Um flash de luz encadeou-a. E à frente daquele clarão de luz intenso, conseguiu vislumbrar um grupo de jovens rapazes de armas apontadas para si, gritando. “Atenção! Preparar! Disparar!” Amélia soltou um grito aterrador, ao mesmo tempo que correu desenfreadamente em direção ao portão de saída do Convento. “Corta! Corta! Corta! Mas quem é que deixou passar esta maluca?!” – berrou, através de um potente megafone, um homem de chapéu de pala, que estava sentado numa cadeira de realizador que tinha impressa na lona do encosto... “Os Giraços de Mafamude” – o título do filme em rodagem.


 
segunda-feira, junho 15, 2020
  O DESAFIO DOS ENIGMAS - edição de 20 de junho de 2020
CONCLUSÃO DO PRIMEIRO CONTO DO NOSSO CONCURSO
Concluímos hoje a publicação do conto inaugural do concurso de contos “Um Caso Policial em Gaia”, que tem como protagonista uma adolescente criada por uma das nossas leitoras mais participativas nas iniciativas desta secção. A primeira parte do original de Madame Eclética terminou no momento em que a jovem Amélia entrou no consultório do psicólogo Paulo Mamede para uma terceira sessão de acompanhamento do caso de depressão em que vivia desde há algum tempo, em virtude da perseguição e assédio sexual que lhe era movida por um grupo de jovens autointitulados de “Os Giraços de Mafamude”. Lá fora, na sala de espera, a prima Susana ficaria a aguardar o final da consulta para acompanhá-la de volta a casa, onde ficaria até ela adormecer, como acontecia habitualmente nos últimos dias. Havia a preocupação de que o estado de saúde de Amélia piorasse e caísse em depressão profunda, pelo que não a podiam deixar ficar sozinha em momento algum. Mas será que ela não vai escapar à vigilância familiar e andar sozinha por aí?...

CONCURSO “UM CASO POLICIAL EM GAIA”       
Conto nº. 1    
“Os Giraços de Mafamude”, de Madame Eclética
II – Parte (conclusão)
As pernas de Amélia tremiam, as mãos suavam e o rosto ruborizava, o que sempre acontecia nestas consultas. Esta era a terceira vez que o psicólogo a ouvia e ela já não sentia que conversava com um técnico de saúde. A conversa desta feita foi sobre música, sobre os seus gostos musicais mais propriamente. E ficou a saber que ele tinha mais uma coisa em comum com ela. Gostava de jazz! Tal como ela, tinha um especial prazer em ouvir Miles Davis, Bille Holiday, Chet Baker e Ella Fitzgerald, nomes maiores deste género musical criado no início do século XX pela comunidade negra de Nova Orleans. Disse ele que era um gosto herdado de seu pai e que tinha uma preciosa discoteca de vinil composta por temas jazzísticos, acabando por convidá-la a ouvi-los em sua casa, numa tarde em que não tivesse consultas, nomeadamente a um sábado.
O coração de Amélia começou a bater tão forte e tão descompassadamente, que se sentiu desfalecer. E o pior foi ainda quando o psicólogo disse que nessa noite havia um concerto de Jazz no Convento Corpus Christi. Ele ainda não tinha a certeza que pudesse ir, mas prometeu que faria todos os possíveis por comparecer. A consulta, que mais pareceu uma conversa entre amigos, passou depois por outros temas também do agrado de ambos. Falaram de cinema, de artes plásticas e teatro, concluindo ambos que estiveram algumas vezes no mesmo dia e no mesmo lugar, a assistir ao mesmo filme, a visitar o mesmo museu, a ver a mesma peça. No final, imediatamente antes das despedidas, ele recordou o concerto de logo à noite. E concluiu, dizendo que o receio de se confrontar com os tais “Giraços de Mafamude” não podia condicionar a sua vida.
Quando a prima Susana perguntou como havia corrido a consulta, Amélia só conseguiu balbuciar “correu bem”. O seu peito rebentava de felicidade, mas ela não podia confessar esse sentimento. E muito menos dizer de quem era a responsabilidade por aquele seu estado de espirito. Era a terceira vez que consultava o psicólogo Paulo Mamede, sempre por causa dos “Giraços de Mafamude”, e pela primeira vez percebeu que não lhe era indiferente como mulher. No caminho de regresso a casa, a Susana perguntou-lhe por diversas o que se passava com ela, tal era o seu estado de espirito. E quando a prima perguntou se queria que ela lhe fizesse companhia até à hora de deitar, o que acontecia com frequência, sobretudo depois das consultas ao psicólogo, Amélia respondeu de supetão: “Não, deixa estar, não vale a pena. Hoje sinto-me muito bem”.
Amélia não se sentia apenas muito bem naquele momento. Na verdade, ela nunca se havia sentido alguma vez melhor desde que se conhecia como mulher. Aquele homem tinha tudo o que ela imaginara como seria o seu futuro companheiro de vida, nas noites febris de desejo da adolescência. Havia algo nele que descontrolava os seus  sentidos, que a deixava perdida em sonhos que a remetiam para fantasiosas experiências sexuais. E agora só pensava na hora de o voltar a ver, logo mais, no convento de Corpus Christi, embalada por aquela louca paixão ao som de algumas das suas músicas de eleição, ao ritmo de jazz.
Quando chegou ao Convento Corpus Christi, atravessou o largo portão que dá acesso ao pátio do monumento na esperança de encontrar a qualquer momento o homem por quem se apaixonara. A entrada era livre, mas não era permitido o acesso ao local do concerto após a hora marcada para o seu início e tinha como condição a permanência obrigatória no espaço até ao final do espetáculo. Amélia olhou em redor e não viu Paulo. Aguardou mais um pouco e quando chegou ao limiar da hora do espetáculo resolveu entrar. A sala já estava repleta de pessoas e só conseguiu lugar na última fila da plateia. Olhou as nucas que se perfilavam na sua frente e em nenhuma delas conseguiu vislumbrar indícios da cabeça do “seu” Paulo. Uma delas tinha um cabelo loiro com algumas semelhanças, mas as dúvidas dissiparam-se quando se posicionou de perfil.
A pessoa que estava ao lado do loiro que a confundiu, voltou-se para este e… Amélia entrou em estado de choque. Era um dos “Giraços de Mafamude”! E ao lado desse estava outro. E mais outro. A rapariga ergueu-se de um salto e correu para a porta de saída da sala, que abriu a custo. Um flash de luz encadeou-a. E à frente daquele clarão de luz intenso, conseguiu vislumbrar um grupo de jovens rapazes de armas apontadas para si, gritando. “Atenção! Preparar! Disparar!” Amélia soltou um grito aterrador, ao mesmo tempo que correu desenfreadamente em direção ao portão de saída do Convento. “Corta! Corta! Corta! Mas quem é que deixou passar esta maluca?!” – berrou, através de um potente megafone, um homem de chapéu de pala, que estava sentado numa cadeira de realizador, que tinha impressa na lona do encosto... “Os Giraços de Mafamude” – o título do filme em rodagem.

CONVITE AO LEITOR
E pronto, caro leitor. Agora o passo seguinte é seu. Para tal, repetimos o nosso convite à sua participação na escolha dos melhores contos. O processo é simples. A partir de hoje, tem trinta (30) dias para fazer a avaliação, em função da sua qualidade e a originalidade, do primeiro conto do nosso concurso, da autoria de Madame Eclética, e enviar a respetiva pontuação, numa escala de 5 a 10 pontos, para o email do orientador da secção (salvadorpereirasantos@hotmail.com).
A competição prossegue na próxima edição com a publicação do segundo conto, desta vez com assinatura de Inspetor Boavida, repetindo-se o processo de avaliação crítica dos nossos leitores durante o mesmo espaço temporal de 30 dias. A sua colaboração é fundamental, caro leitor!

 
terça-feira, junho 02, 2020
  O DESAFIO DOS ENIGMAS - edição de 5 de junho de 2020
     ARRANCA O CONCURSO DE CONTOS “UM CASO POLICIAL EM GAIA”
Aqui está o primeiro conto do concurso “Um Caso Policial em Gaia”, que animará a nossa secção até final deste ano. Este primeiro original é publicado em duas partes, devido à sua extensão, sendo a sua conclusão inserida na próxima edição do jornal AUDIÊNCIA GP.  A sua autora é nossa seguidora desde a primeira hora, profissional de saúde na linha da frente de combate ao Covid-19, neste momento numa fase um pouco mais calma e menos preocupante. Madame Eclética, pseudónimo que deixa transparecer a multiplicidade de interesses que animam os seus dias e as inúmeras atividades em que se desdobra para além da sua profissão, traz-nos um conto que aborda nesta sua I parte, embora de forma ligeira, os perigos que se escondem nas redes sociais.
A II parte deste conto inaugural do nosso concurso alerta-nos para outros perigos, a que estão principalmente sujeitos os mais jovens, sobretudo os que vivem a fase da adolescência, uma época de muitas incertezas e dúvidas, mas também de crescimento, em que se sente fluir no corpo os primeiros impulsos sexuais. Nesta fase tudo é maximizado e vivido com muita intensidade, muito principalmente aquando do nascimento do primeiro amor, que surge normalmente de forma marcante. Nesta idade, as paixões avassaladoras são muito frequentes e... Bom, mas essa é uma questão a confirmar na próxima edição da nossa secção, quando ficarmos a conhecer o desfecho desta aventura que tem por principal protagonista a jovem Amélia, uma miúda que gosta de jazz...

CONCURSO “UM CASO POLICIAL EM GAIA”        
Conto nº. 1     
“Os Giraços de Mafamude”, de Madame Eclética
I – Parte 
Amélia era uma miúda estruturalmente alegre e desempoeirada, muito gira e dada à brincadeira. Espalhava o seu charme pelas redes sociais, facebook, twitter, instagram, onde foi conquistando seguidores atrás de seguidores sem temer que aquela sua aventura pelo mundo virtual viesse a degenerar numa qualquer invasão indesejada da sua vida privada. Até que um dia começou a ser assediada por um grupo de tarados que se autointitulavam “os mais Giraços de Mafamude”. Primeiro, começaram com uns piropos pueris e aparentemente inocentes, para depois se insinuarem com uns convites de cariz sexual, primeiro brejeiros e mais tarde ordinários e pornográficos, em qualquer das três contas por ela geridas nas redes sociais. Mas de nada valeu a sua pronta e forte reação contra aquelas atitudes nem o subsequente bloqueio das indesejáveis criaturas.
Os contactos passaram a ser feitos através do telemóvel e do telefone de rede fixa, sem que se percebesse como aqueles tarados conseguiram ter acesso aos respetivos números. Amélia deixou de atender as chamadas de números desconhecidos ou anónimos e as mensagens escritas passaram a ser a ferramenta de assédio, com uma catadupa de insultos e ameaças. Face a este comportamento, ela denunciou-os à polícia. Mas ao contrário do que se esperava, o resultado foi desastroso. É verdade que os telefonemas, as mensagens e os comentários nas redes sociais terminaram, mas eles passaram a esperá-la, em grupo, à porta de casa e do emprego, limitando-se a sorrir e a soltar frases de cariz sexual, como “és boa com’ó milho, meu pintainho”, “comia-te toda, minha pombinha”, “lambia-te dos pés à cabeça, meu chupa-chupa de chocolate.” 
Amélia deixou de trabalhar, enfiou-se em casa, não saía com ninguém e mal comia. As noites eram muitas vezes passadas em claro ou assombrada por pesadelos, quando conseguia pregar olho, acordando nessas alturas em sobressalto e encharcada em suor, tremendo que nem varas verdes. De manhã, mais ou menos à hora em que habitualmente saía para o emprego, quando olhava pela janela, encoberta pelas persianas de seu quarto, lá estava o grupo de Mafamude. Invariavelmente, eles ficavam estacionados na rua defronte da casa dela, encostados à parede de olhos fixos na sua janela. E só desmobilizavam quando a polícia chegava junto deles, a seu pedido. Mas mal os agentes voltavam costas, lá vinham de novo os rapazes, como se não tivessem mais nada que fazer na vida a não ser incomodar a rapariga, que não sabia como agir. 
Após frequentes apelos da mãe, Amélia abandonou de vez as redes sociais, onde era massacrada com frequentes provocações de teor sexual por amigos dos giraços de Mafamude. E aos poucos voltou a sair de casa, sempre na companhia de uma prima, um pouco mais nova, para se distrair em locais fora da cidade ou cumprir as consultas técnicas especializadas a que fora aconselhada. Nos intervalos em que a polícia punha os rapazes com dono, saíam ambas de casa e corriam para o lado oposto ao sítio por onde eles haviam fugido, diretas à estação de metro do Jardim do Morro. Aí, encobertas pela cobertura-abrigo da estação, esperavam calmamente até chegar as carruagens que as levavam a São Bento ou a Santo Ovídio. De São Bento rumavam a Espinho ou a Aveiro; de Santo Ovídio o destino era sempre um prédio azul da rua Soares dos Reis. 
No terceiro esquerdo daquele velho prédio da rua Soares dos Reis, dava consultas de psicologia um jovem muito bem-parecido, recentemente formado, com fama de ser muito competente. Num desses dias de consulta, a priminha da Amélia ficou na sala de espera, como sempre acontecia, enquanto ela entrava no consultório do Dr. Paulo Mamede. Cabelo loiro comprido, com melenas caindo sobre as sobrancelhas espessas que encimam os seus brilhantes olhos verdes, um sorriso permanente nos lábios carnudos bem desenhados e uma voz cava e melodiosa. O sol entrava pelas altas janelas do consultório, dando ainda mais brilho ao rosto moreno do psicólogo, que esperava sentado a sua paciente, com as mãos pousadas sobre o tampo da secretária pejada de livros. Amélia avançou até ele, que lhe apontou a cadeira em sua frente, onde se sentou. 
(Continua na próxima edição)

CONVITE AO LEITOR
Com tem sido amplamente referido, a classificação dos contos do concurso “Um Caso Policial em Gaia” será definida através da média da pontuação atribuída pelos nossos leitores, numa escala de 5 a 10 pontos, em função da sua qualidade e originalidade. Os leitores terão o prazo de 30 dias, após a publicação de cada conto, para a sua apreciação e envio da respetiva pontuação para o email salvadorpereirasantos@hotmail.com. Reiteramos, por isso, o nosso convite à participação de todos os que nos leem na escolha do conto vencedor do concurso e dos demais originais a premiar. No caso concreto do primeiro conto, de que se publica hoje a primeira parte, os leitores deverão esperar pela publicação da respetiva conclusão, a partir da qual poderão fazer a sua apreciação critica, atribuindo-lhe a correspondente pontuação e enviando-a para o orientador da secção dentro do prazo estabelecido para o efeito, ou seja, até ao 30º dia após a sua publicação.
 
segunda-feira, maio 18, 2020
  O DESAFIO DOS ENIGMAS - edição de 20 de maio de 2020
                    O “BORDA D’ÁGUA DO CONTO CURTO” ESTÁ DE REGRESSO 
            Apesar de ter decidido suspender o seu tradicional convívio anual, que se realiza regularmente no mês de maio de cada ano, a Tertúlia Policiária da Liberdade (TPL) manteve uma das suas mais “jovens” iniciativas: a edição da publicação a que deu título de “Borda d’Água do Conto Curto”, onde um grupo de 12 escritores da “tribo policiária nacional” se inspira em cada um dos meses do ano e produz um “conjunto de micronarrativas mais ou menos cómicas, mais ou menos melodramáticas, mais ou menos filosóficas, mais ou menos premonitórias... onde o crime e os criminosos ou as forças que os combatem e as suas vítimas são protagonistas quase absolutos”.
A edição de 2020 desta publicação da TPL contém contos assinados por A.B.Rótea (Setúbal), Arnes (Trofa), Búfalos Associados (Sintra), Detetive Jeremias (Almeirim), Inspetor Aranha (Santarém), Inspetor Boavida (Almada), Inspetor Mokada (Gaia), Inspetor Moscardo (Santarém), Jartur (Porto), Ma(r)ta Hari (Gaia), Rigor Mortis (Lisboa) e Zé (Viseu). Mais importante do que a qualidade dos originais, o que importa é dar espaço à imaginação dos seus autores e expô-la à curiosidade dos leitores, homens e mulheres com um gosto particular pela literatura policial e amantes da problemística policiária, desafiando-os a experimentar a escrita.
Um desses contos, da autoria de Inspetor Boavida, tem “honras” de pré-publicação nesta edição d’ O Desafio dos Enigmas, não porque se distinga postivamente dos demais pela sua qualidade ou qualquer outra virtude, mas porque o seu autor manifestou desde logo a disponibilidade para que a obra fosse dada a conhecer aos nossos leitores e potenciais contistas que ainda estejam na dúvida se devem ou não enviar os seus originais para o concurso “Um Caso Policial em Gaia”, com o receio de se exporem ao veredicto das pessoas que nos leem.

CONTO DE AGOSTO
“Um Desejo Irresistível Sob o Sol de Agosto”, de Inspetor Boavida
Tó-Zé já está um homenzinho. Está na idade da imortalidade e de todos os disparates, em que não há impossíveis nem limites para os sonhos. Mas, felizmente, não é de muitos excessos. A não ser nas suas relações com as miúdas. Este ano já lhe contaram mais de dez namoradas, todas elas giras. E no inicio deste verão soube-se que chegou a andar com três ao mesmo tempo, o maroto. Mas mal agosto nasceu tudo acabou. Como sempre acontece, assim que chegou a data de partir para férias, rompeu com todas. Nessa altura quer ser livre como os passarinhos que vê ao acordar através da janela do seu quarto, cantando só para ele. Este ano, porém, um dos seus mais irresistíveis desejos levaram-no a cometer um grande disparate.
Ela deixava-o louco. Há semanas que aparecia dengosa, invariavelmente à mesma hora, após o almoço, sempre que ele se sentava naquele banco do jardim a gozar as delícias do verão que há muito nascera. O sol, lá no alto, brilhava em quase todo o seu esplendor. E ela lá vinha, sorrateiramente, insinuante, levemente, esvoaçante. Aproximava-se do banco fronteiro e por lá ficava enquanto ele lia tranquilamente um livro. Aos poucos, ele foi ficando cada vez mais impaciente, com o desejo de se aproximar dela, sentar-se a seu lado e olhá-la de perto, admirar a sua frágil figura, inalar o seu cheiro... Qual seria o seu odor, o perfume do seu pequeno corpo?... Que calor ela irradiava, que sensações seria capaz de transmitir?... 
O desejo de a conhecer melhor era muito, mas o medo de a perder para sempre também. Aos poucos foi ganhando coragem e um dia lá se levantou, discretamente, deixando o livro no seu assento à espera de qualquer reação dela. Da primeira vez que o fez, mal esboçou deslocar-se em sua direção, ela pressentiu a intenção de se sentar a seu lado e partiu. Ele fez nos dias seguintes várias tentativas e o resultado foi sempre o mesmo: A fuga! Adotou depois nova estratégia e manteve-se sempre no seu lugar, de olhos postos nela, com o livro esquecido a seu lado para que ela percebesse que já nada mais o interessava, se não ela mesmo. Mas ela, nada! Era como se ele ali não estivesse, não existisse, não fizesse parte do seu mundo.
Ele não convivia bem com aquela sua reação. Mas a verdade é que ela nunca deixou de aparecer no jardim. Sempre à mesma hora, bela, ligeira, atrevida, acomodando-se sempre no banco em frente ao seu, cerca de cinco metros mais além. Quando ela se distraiu, ele pegou na arma e... disparou. Em cheio. Desta vez ela não fugiu. Ali ficou, morta, caída sobre o banco de jardim, onde ele nunca se chegou a sentar apesar da vontade quase indomável de o fazer, só para estar um pouco junto dela. Poisou a espingarda de pressão de ar que o acompanhava sempre que passava as férias grandes, ali na terra dos seus avós, e apressou-se a pegar nela. Ela que o trazia há muito preso ao desejo de um arrozinho malandrinho de... pomba branca!

CONCURSO “UM CASO POLICIAL EM GAIA”
Termina no final deste mês o prazo de envio de originais para o nosso concurso de contos, que arranca na próxima edição. Recordamos que o concurso está aberto a todos, sem quaisquer condicionalismos de idade, sexo ou nacionalidade, podendo cada concorrente apresentar mais do que um original (com pseudónimos diferentes, claro). Os trabalhos, na modalidade de conto policial, em língua portuguesa, deverão ter ação no concelho de Vila Nova de Gaia e terão obrigatoriamente o mínimo de duas páginas de formato A4 e o máximo de quatro, escritas a 1,5 espaços, na fonte Times New Roman e corpo de letra 12. Os originais deverão ser enviados em formato digital para o endereço eletrónico salvadorpereirasantos@hotmail.com. Os trabalhos serão publicados por ordem de receção, a partir de 5 de junho de 2020. E a classificação dos contos será definida através da média da pontuação atribuída pelos seus leitores, da seguinte forma: no final da publicação de cada conto, os leitores terão 30 dias para enviar a sua pontuação, numa escala de 5 a 10 pontos, em função da qualidade e originalidade, através do email acima referido. 
Será vencedor do concurso o conto que alcançar uma maior pontuação média, sendo também distinguidos os restantes trabalhos classificados nas dez primeiras posições. Serão atribuídos os seguintes prémios: 1º a 4º Lugar – Taças; 5º a 10º Lugar – Medalhas. Convém ressalvar que os “contistas” não podem participar no processo de escolha dos melhores contos. Por último, refira-se que os casos omissos serão resolvidos pelo orientador d’ O Desafio do Enigmas, não havendo recurso das decisões tomadas. Posto isto, está à espera de quê, caro leitor? Participe!


 
sexta-feira, maio 01, 2020
  O DESAFIO DOS ENIGMAS - edição de 5 de maio de 2020
                  TERTÚLIA POLICIÁRIA DA LIBERDADE SUSPENDE CONVÍVIO
Maio é habitualmente o mês do tradicional convívio nacional da Tertúlia Policiária da Liberdade, iniciativa com realização ininterrupta há 16 anos, reunindo policiaristas de norte a sul do país. Foi neste evento que o ano passado O Desafio dos Enigmas procedeu à entrega dos prémios do torneio “Solução à Vista!” e do concurso “Mãos à Escrita!” conquistados pelos “detetives” de Santarém e Lisboa. Este ano, porém, numa altura em que se mantêm as medidas de contingência impostas pela pandemia do novo coronavírus Covid – 19, o evento não será realizado em maio. Estamos, por isso, a estudar outras formas, e o calendário possível, de proceder à entrega dos prémios dos concorrentes desses e dos outros distritos, decisão de que daremos nota em breve.
 Sublinhe-se, no entanto, que a suspensão do convívio da Tertúlia Policiária da Liberdade foi determinada por razões de pesar e luto, face ao desaparecimento físico de um dos seus principais membros, um dos mais destacados policiaristas nacionais, com um longo e riquíssimo percurso como produtor e decifrador de enigmas e grande cultor e defensor da literatura policial. Figura de referência do mundo policiário, por todos estimado, ele foi o criador do impagável Detetive Tempicos e de icónicas personagens de inúmeras e inesquecíveis aventuras, como “Nelinha” e sua sobrinha “Katinha”.... Estamos a falar, claro, de António Raposo, mais conhecido no mundo policiário por A. Raposo, que nos deixou aos 84 anos, no passado mês de fevereiro.

A.    RAPOSO - UMA BIOGRAFIA BREVE
Nascido no Algarve, onde regressava regularmente para matar saudades dos lugares da sua infância e visitar familiares e velhos amigos, António Raposo veio ainda adolescente para Lisboa e rapidamente se tornou alfacinha por adoção, sem nunca perder no entanto a sua forte costela algarvia. Começou por viver no pitoresco e popular bairro do Alto do Pina, mas calcorreou a velha cidade de lés-a-lés, sendo frequentador assíduo das tertúlias culturais dos cafés da baixa lisboeta.
A génese das tertúlias policiárias estará certamente nas célebres reuniões do já desaparecido Café Martinho, do Rossio de Lisboa, que juntava em alegre e amena cavaqueira muitos dos conhecidos intelectuais que viriam a ser os melhores policiaristas dessa época. Mas o “bichinho” do policiário começou a germinar ainda antes, andava ele na Escola Veiga Beirão, ali para os lados do Carmo, junto ao Chiado, em Lisboa, corriam os anos cinquenta do século passado. Havia ao tempo uma publicação de banda desenhada chamada “Camarada”, editada pela Mocidade Portuguesa, de linha editorial nacionalista, mas servida por uma grande equipa de desenhadores e com uma excelente impressão gráfica, onde um dia surgiu uma página dedicada ao policiário.
Essa página era orientada por Sete de Espadas, um homem verdadeiramente invulgar que tinha uma qualidade muito pouco comum: fazia tudo com gosto e muita paixão. Foi graças a ele que muitos destacados nomes da sociedade portuguesa, como, por exemplo, Matos Maia (ilustre homem da rádio), Luís Filipe Costa (radialista, jornalista e realizador de cinema) ou Firmino Miguel (general do Exército e ministro da Defesa dos I e II governos provisórios e do I governo constitucional do pós-25 de Abril), se iniciaram no policiário. E entre estes estava A. Raposo.
Por essa altura surgiram as grandes coleções de livros policiais, como a Vampiro e a Xis. Leu muitos deles, quase todos. E ficou fã de alguns dos grandes escritores da época, que foram a sua grande inspiração para se abalançar na escrita de contos, enigmas e poemas de índole policiária ou satírica e erótica-satírica – da vasta obra produzida, destacamos, entre muitas outras pérolas de fina literatura, os dois singulares “livrinhos” de bolso “O Cabo de Esquadra Jeremias” e “O Retiro do Quebra-Bilhas”, que nos permitem (...) “visitar uma Lisboa icástica, hoje quase desaparecida”. 
Por volta de 1956, A. Raposo fundou com alguns dos seus amigos, sob a batuta do “velho” Sete de Espadas, o lendário Clube de Literatura Policiária (CLP), que teve como primeira sede um pequeno apartamento no lisboeta bairro dos Anjos. Como o seu nome figurava no requerimento feito ao Governo Civil de Lisboa para que a constituição do clube fosse autorizada, a famigerada PIDE foi a sua casa para saber se “era bom rapaz e trabalhador”... ou se tinha ideias subversivas. 
Por essa altura confessava-se um completo analfabeto político! Se bem que já nesse tempo dizia ser um “anarquista-agnóstico, graças a Deus”. O CLP lá nasceu e ele esteve sempre na linha da frente pela dignificação da literatura policial. Em 1974, porém, perdeu o contacto com o policiário e ganhou aproximação à política. Foram bons os tempos que viveu durante o PREC, mas foi-se desiludindo aos poucos com o “estado a que a política chegou”. E regressou ao policiário! 
Aí por volta de finais dos anos 80, um dos seus amigos das lides policiárias, que se assina como O Gráfico, começou a enviar-lhe o Jornal de Almada, onde aquele assinava uma página dedicada ao policiário. E ei-lo de regresso ao que ele considerava uma “droga”, uma “droga boa e sem contraindicações”, à qual acabaria por ficar irremediavelmente preso para sempre. Uma “doença” que foi partilhando com a sua querida Esposa, Helena, grande companheira na vida e no policiário, onde é muito estimada por todos, que carinhosamente a tratam por Lena ou Leninha.  
Nos inúmeros torneios em que A. Raposo participou ao longo dos tempos, acrescentando muitas vezes ao seu pseudónimo o nome da sua Lena, esteve sempre nos lugares cimeiros, mas só uma vez ganhou um porque se considerava um bocado preguiçoso e curto nas respostas. O importante para ele era participar. Dizia que era assim como os grandes atletas dos Jogos Olímpicos, mas dos antigos, daqueles que disputavam as provas das várias disciplinas desportivas com o objetivo único de conquistar uma simples coroa de louros. E a coroa de louros no policiário é a solidariedade, a amizade e a fraternidade que A. Raposo personificava e germina entre nós.

A.    RAPOSO - UM MESTRE DO POLICIÁRIO EM REVISTA
Passar em revista alguns dos muitos problemas policiários produzidos por A. Raposo, constituindo com eles um “Torneio de Iniciação” especialmente destinado aos “detetives” principiantes na vertente de decifração, será uma das nossas próximas iniciativas. No entanto, embora essa prova seja prioritariamente destinada a iniciados, estreantes ou praticantes com menos de três anos de atividade na modalidade, poderão também participar outros policiaristas com mais experiência. Estes últimos integração um grupo especial, com uma tabela classificativa distinta da dos demais, onde seremos mais exigentes na avaliação das propostas de solução enviadas. Mas isso, claro, não é para já. Para já mesmo é o concurso de contos “Um Caso Policial em Gaia”, que arranca no próximo dia 5 de junho e que animará a nossa secção pelo menos até ao final do ano.
 
quinta-feira, abril 16, 2020
  O DESAFIO DOS ENIGMAS - edição de 20 de abril de 2020
               E OS VENCEDORES SÃO... BÚFALOS ASSOCIADOS E DANIEL FALCÃO
Estão encontrados os grandes vencedores do torneio de decifração “Solução à Vista!” e do concurso de produção “Mãos à Escrita!”. Búfalos Associados vence o torneio de decifração, após uma disputa muito animada e de desfecho imprevisível deste a primeira prova com Detetive Jeremias, que assegura a segunda posição logo seguida de Inspetor Moscardo. Por outro lado, Daniel Falcão vence o concurso de produção, com Detetive Jeremias e Rigor Mortis a ocuparem os restantes lugares do pódio. Mas vejamos ao pormenor como ficaram as respetivas classificações, não sem antes ficarmos a conhecer a “solução oficial” da derradeira prova do torneio de decifração:  

TORNEIO “SOLUÇÃO À VISTA!”         
Solução da Prova nº. 10                   
“Smaluco e a Matança numa Terra em Festa”, de Inspetor Boavida
“Espertinha” só sabia o mês em que a matança teria lugar e “Sabichona” apenas conhecia o dia. Ora como nenhum mês das datas enunciadas tem apenas um dia e vários meses têm dias repetidos entre si, é natural que “Espertinha” afirme que não sabia em que dia ia ter lugar a planeada matança. Porém, ao dizer que tinha a certeza absoluta de que “Sabichona” também não sabia a data do crime (por conhecer apenas o dia daquela ocorrência), ficamos a saber que a matança não pode estar marcada para nenhum mês com dias distintos dos demais, como junho e julho, que têm dias (9 e 8, respetivamente) que não se repetem em qualquer dos restantes meses das datas possíveis, o que abriria a possibilidade de “Sabichona” descobrir o mês correto conhecendo apenas o dia. 
Com esta afirmação de “Espertinha”, “Sabichona” ficou a saber que o crime só podia ser cometido em agosto ou setembro. E ao afirmar que antes não sabia a data da matança, mas que agora já sabe, ela está a dizer que o dia certo tem de constar apenas num desses meses, o que permitiria distingui-lo dos outros. Caso contrário, “Sabichona” ficaria sem certezas. Assim, ficamos a saber que nem 4 de agosto nem 4 de setembro podem ser as datas corretas. Restam 6 de agosto e 5 e 7 de setembro. E se depois da afirmação de “Sabichona”, “Espertinha” diz já conhecer a data correta, ficamos a saber a data da matança, uma vez que ela só pode ter essa certeza se no mês certo (que ela conhece!) houver apenas um dia possível. Ou seja, a matança vai ser no dia 6 de agosto.
Falta agora saber em que “terra em festa junto ao mar” seria cometido o planeado crime. Ora, se consultarmos o mapa de feriados municipais portugueses, verificamos que só Peniche (terra junto ao mar) está em celebração no dia 6 de agosto, que coincide normalmente com a realização das festas em honra da Nossa Senhora da Boa Viagem, padroeira da cidade e dos pescadores. Por outro lado, recorde-se que a polícia de investigação criminal portuguesa só passou a designar-se Polícia Judiciária (PJ) em 1945, pelo que a história narrada só pode desenvolver-se entre aquele ano e a atualidade. E como durante esse período temporal o domingo de Páscoa apenas coincidiu uma vez com o dia das Mentiras, exatamente em 2018, a ação do enigma começa no dia 1 de abril de 2018, ano em que as festas referidas, consideradas as maiores da região centro do país, decorreram entre os dias 17 de julho e 7 de agosto.
Pontuação/Classificação Final 
Esta animada maratona de dez meses reuniu à partida 44 concorrentes e acabou por registar 47 ao longo da prova, uma vez que 3 entraram na corrida já com o “pelotão” em marcha. Contudo, nem todos atingiram a meta final. Alguns dos concorrentes foram ficando pelo caminho ao longo das diversas etapas, acabando por isso na cauda da classificação que a seguir se publica. Houve um concorrente, porém, que só não compareceu na última etapa: o nosso querido Amigo António Raposo, criador do célebre Detetive Tempicos, que nos deixou muito recentemente e a quem prestamos a nossa mais sentida homenagem. Em breve voltaremos a honrar a sua memória.
1º. Búfalos Associados (111+13): 124 pontos;
2º. Detetive Jeremias (110+12): 122 pontos;
. Inspetor Moscardo (91+10): 101 pontos;
4º. Zé de Mafamude (92+8): 100 pontos; 
5º. Ego (88+11): 99 pontos; 
6º. Bernie Leceiro (86+10): 96 pontos;
7ºs. Rigor Mortis (86+8) e Ma(r)ta Hari (86+8): 94 pontos;
9ºs. Inspetor Mucaba (82+10) e Tempicos & Tempicas (92+0): 92 pontos;
11º. Carlota Joaquina (82+8): 90 pontos;
12ºs. Detetive Bruno (79+9) e Pena Cova (79+9): 88 pontos;
14ºs. Charadista (77+10) e Chico da Afurada (77+10): 87 pontos
16ºs. Holmes (77+9), Necas (76+10) e Príncipe da Madalena (76+10): 86 pontos; 
19ºs. Beira Rio (76+9), Bota Abaixo (76+9), Broa de Avintes (76+9): 85 pontos;
22ºs. Agata Cristas (74+10), Haka Crimes (75+9), Insp. Guimarães (75+9), Insp. Madeira (74+10), Mascarilha (75+9), Mosca (75+9) e Talismã (76+9): 84 pontos;
29ºs. Dragão de Santo Ovídio (74+9), Faina do Mar (75+8), Martelo (74+9), Mancha Negra (74+9), Pequeno Simão (74+9) e Tó Fadista (75+8): 83 pontos;
35ºs. Amiga Rola (72+10), Detetive Vasoff (75+7) e Vitinho (72+10): 82 pontos;
38ºs. Arc. Anjo (71+10) e Santinho da Ladeira (72+9): 81 pontos;
40ºs. Insp. Mostarda (71+8) e Solidário (71+8): 79 pontos;
42ºs. Moura Encantada (67+9), O Madeirense (67+9) e Oluap Snitram (66+10): 76 pontos;
45º. Donanfer II (66+0): 66 pontos;
46º. Abrótea (50+0): 50 pontos;
47º. Airam Semog (26+0): 26 pontos.

CONCURSO “MÃOS À ESCRITA!”       
As avaliações feitas pelos solucionistas e orientador da secção ao enigma “Um Pedido de Ajuda” resultaram numa pontuação média que nos obrigou a recorrer às centésimas para desempatar os lugares dos produtores Rigor Mortis (8,42) e Detetive Jeremias (8,44) na tabela classificativa final, que consagrou Daniel Falcão como o grande vencedor e ficou assim ordenada:
1º. “Crime Leaks”, de Daniel Falcão: 8,60 pontos;
2º. “Um Pedido de Ajuda”, de Detetive Jeremias: 8,44 pontos;
3º. “Whisky Fatal”, de Rigor Mortis: 8,42 pontos;
4º. “…E Também não é uma Cebola”, de Búfalos Associados: 8,30 pontos;
5º. “O Caso do Capitão Venâncio”, de A. Raposo: 8,20 pontos;
6º. A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça”, de Bernie Leceiro: 7,90 pontos;
7º. “A Estranha Morte do Barão”, de Abrótea: 7,80 pontos;
8º. “O Estranho Caso da Falsa Mobilidade”, de Bigode: 7,60 pontos;
9º. “Abílio Vai à Bola”, de Daniel Gomes: 6,20 pontos.
 
enigmas e contos policiais

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